O NEOPAGANISMO – DE AVATAR AOS EVANGÉLICOS

Isaltino Gomes Coelho Filho

                Luiz Felipe Pondé é um pensador brilhante. Alguns lhe torcerão o nariz porque ele critica a esquerda com a mesma ironia e veemência de Nelson Rodrigues (quem o leu se lembra de uma de suas figuras prediletas, a universitária da PUC, emblemática como o tio Altamirando, de Stanislaw Ponte Preta). E a esquerda se julga acima da crítica.  E quem a critica é “reacionário”.  Sobre Pondé, escrevi, tempos atrás, o artigo “Santos entre taças de vinho”. Aguardava ansioso seu livro Guia politicamente incorreto da filosofia. Valeu a pena. Lê-lo me enriqueceu.

Um dos pontos altos do livro é a sua crítica ao romantismo como categoria de pensamento. A análise do filme “Avatar” é muito boa. A ela nivelam-se sua análise do “outro”, onde é severo com Martin Buber e Emanuel Levina (o blábláblá do “outro”) e o capítulo “A mediocridade anda em bando, e a democracia ama os medíocres”. Também é muito bom o capítulo sobre “A teologia da esquerda ou da libertação”. Mas o capítulo sobre a tolice de Avatar, que glorifica índios azuis “com suas técnicas médicas do Neolítico”, e mostra o progresso e a ciência como bandoleiros, é genial. Eu já entendera a ideologia do filme. É a mesma visão romântica de que os brancos com seu progresso são culpados de todos os males da América índia, e que eles vieram aqui apenas para predar um paraíso povoado por anjos corpóreos não caídos. Como se os habitantes da América não fossem sanguinários e não vivessem em guerra constante entre si. Eu achara “Avatar” uma propaganda medíocre da visão rousseaniana do “bom selvagem” e do “civilizado cruel”, com aparatos tecnológicos. Eu já tinha abandonado esta visão rastaqüera quando entendi a doutrina da Queda.

Em “Avatar”, a natureza é viva e as pessoas abraçam e conversam com árvores, que são divindades, como a própria natureza o é. Em 1977, pastor nos meus vinte e poucos anos, apresentei em um congresso uma palestra (que não mais possuo – se alguém tiver, me envie, por favor) sobre “Neopaganismo”. No iniciante movimento Nova Era eu via o culto a natureza, atribuindo-lhe personalidade e inteligência. Muitos de nós ainda fazemos isso: “A natureza é sábia”, ou: “A natureza se vinga”. Ou, ainda, “Cuide da natureza que ela cuida de você”. Se a natureza fosse sábia não nos seria hostil nem produziria tiririca no lugar de trigo. Não haveria terremotos nem maremotos (paremos de chamar maremoto de tsunami – não somos japoneses!). A natureza é uma força, não uma pessoa. Não é sábia nem boa nem má. É uma coisa. Ela não é Deus. É criação, e sofre os efeitos do pecado (Gn 3.17, Rm 8.19-22). Não é nossa mãe. Pelo menos, não é a minha, que se chamava Nelya Werdan.

Pondé usa a expressão que usei em 1977: neopaganismo. Cuidar da natureza é uma coisa, e é nossa tarefa (Gn 2.15). Cultuá-la é outra.  O paganismo e neopaganismo auferem vida e propósito a coisas. Pagãos orientais cultuam árvores, vacas e ratos. Pagãos tidos como cristãos cultuam relíquias, ossos de santos e lascas da cruz de Cristo. E pagãos tidos como evangélicos compram (em forma de oferta) vidrinhos com óleo vindo da Terra Santa, garrafa d’água do rio Jordão e até pedaços de toalha que secaram o suor do santo homem de Deus.  O pagão e neopagão adoram coisas e confiam nelas, ao invés de adorarem e confiarem em quem fez as coisas (Rm 1.23, 25).

Sob o manto de preocupação ecológica (algo sadio) muitas vezes vem o desvirtuamento da ordem de Deus. A natureza é para ser cuidada e usada (Gn 1.29). Não para ser adorada. Obreiros de Deus devem ser respeitados, nunca glorificados. São instrumentos, não agentes do reino (1Co 3.6). O culto é a Deus. Não às coisas. As coisas não têm poder. Deus tem. É o Criador, e não a criação nem a criatura, que deve ser adorado. Cuidado com o neopaganismo. Ele tira o foco de Deus e põe em coisas e pessoas.