PALESTRA 1 – O EMBRIÃO DA IGREJA

PREPARADA PELO PR. ISALTINO GOMES COELHO FILHO PARA O SEMINÁRIO TEOLÓGICO BATISTA GRAPIUNENSE, BAHIA.

 

A base desta palestra é o texto de Marcos 3.13-19, que aqui registro, para facilitar:

  • Depois subiu ao monte, e chamou a si os que ele mesmo queria; e vieram a ele. Então designou doze para que estivessem com ele, e os mandasse a pregar; e para que tivessem autoridade de expulsar os demônios. Designou, pois, os doze, a saber: Simão, a quem pôs o nome de Pedro; Tiago, filho de Zebedeu, e João, irmão de Tiago, aos quais pôs o nome de Boanerges, que significa: Filhos do trovão; André, Filipe, Bartolomeu, Mateus, Tomé, Tiago, filho de Alfeu, Tadeu, Simão, o cananeu, e Judas Iscariotes, aquele que o traiu.

 

O texto da chamada dos doze não é o registro de uma ata de fundação de um grupo religioso. Não é um relato fortuito, nem seco.  A maneira de Jesus agir foi planejada e muito bem calculada para transmitir uma verdade. Há um ensino teológico implícito no texto. Entendo que em termos funcionais, a Igreja surge aqui, embrionariamente. O registro da chamada dos doze deixa indicações valiosas do que é a Igreja do Senhor. É por aqui que vamos andar.

O conceito de Igreja está muito confuso e difuso em nosso meio. Alguns o entendem pela ótica de comportamento, o que tornar o evangelho em mero behaviorismo espiritual. Não nego que ser Igreja traga a consequência de um comportamento novo e bem distinto do comportamento do que chamamos de “mundo”. No entanto, isto é consequência e não a essência de ser Igreja. Vem depois e não antes.

Outros enxergam Igreja pelo ângulo de curas, dons e bênçãos. Os carismas, parte da Igreja, tornam-se a sua essência, a sua própria razão de ser. Toda a vida da Igreja é centrada neste aspecto.

Outros mais veem a questão somente pelo ângulo de transformação social. Não nego que ser Igreja tenha a ver com isto, mas este não pode ser o princípio hermenêutico para análise da Igreja.   Muitas vezes o exagero desta postura faz da Igreja um reboque de partidos políticos. Ela é reduzida a um apêndice de ideologias humanas, o que é um equívoco mesmo que tais ideologias sejam nobres.

É problemático quando uma faceta do evangelho é mostrada como sendo todo o evangelho e quando uma parte da missão da Igreja é mostrada como sendo toda a missão. Perde-se a visão global do fenômeno chamado Igreja, ficando-se com uma visão fragmentária e, não raro, herética. Aliás, “heresia” nos vem do grego hairesis, que não significa, como se pensa, “erro”, mas sim “escolha”. O uso inicial da palavra nos tempos neotestamentários trazia a ideia de facciosidade. Fazia-se uma escolha facciosa. Não de toda errada, mas de uma facção, de uma parte da verdade, e a mostrava como sendo toda a verdade.

Defino minha linha numa sentença, para que saibamos por onde vamos andar: os doze são o embrião da Igreja. São a semente que desabrocha na magnífica árvore que hoje temos.  É daqui que parto.

 

ONDE SURGE O EMBRIÃO DA IGREJA

Em Marcos, o início da pregação do evangelho se dá no deserto. O ponto de partida geográfico é o deserto, de onde vem o Batista: “Voz do que clama no deserto” (1.3). O princípio da pregação está no deserto. Mas não é só isto. Os primeiros batismos também são efetuados no deserto: “apareceu João, o Batista, no deserto, pregando o batismo de arrependimento…” (1.4). Por que, exatamente, no deserto? Por que não numa grande vila ou junto à população mais concentrada, de forma a ter mais popularização?

Foi no deserto que Moisés, o fundador da primeira comunidade povo de Deus, Israel, viveu parte de sua vida. Foi no deserto, por quarenta anos, que Israel peregrinou, em busca de sua terra prometida. Elias andou pelo deserto, por quarenta dias (1Rs 19.8). O convertido Paulo andou pelo deserto. Em Apocalipse 12.6, perseguida pelo dragão, a mulher foge para o deserto.

Foi no deserto que Deus encontrou Moisés e começou o processo de libertação de Israel. Foi também no deserto, quando Judá regressou de Babilônia, que Deus começou o processo de reconstrução do seu povo. O deserto é lugar especial na revelação bíblica.  Sem se forçar a situação, pode-se até mesmo desenvolver uma “teologia do deserto”, nas Escrituras.

Deserto, na Bíblia, é lugar de solidão, de sofrimento e de crise. Mas é também lugar de encontro com Deus, de viver com ele, de ser seu povo. Foi no deserto que Israel viveu suas primeiras experiências com seu Deus, recebeu a lei e foi constituído como uma nação, deixando de ser apenas uma massa de ex-escravos. O evangelho começa no deserto porque é a mensagem de encontro com Deus e a chamada para ser seu povo. Gênesis começa com “no princípio”. É a história da criação do início de Israel, em suas raízes mais longínquas. Principalmente após o capítulo 12 começa a história de Israel. Marcos também começa assim. “Princípio do evangelho de Jesus Cristo, Filho de Deus” (1.1). Ele está escrevendo, também, uma história do povo de Deus. Não é sem sentido que esta palavra é posta como a primeira no segundo evangelho. Uma nova revelação está sendo escrita. Um novo povo começa a ser descrito.

O judaísmo ensinava que Deus estava no templo. O evangelho chega ensinando que Deus está no deserto, no sofrimento, na solidão e nas crises dos homens. As roupas do Batista são idênticas às de Elias (2Rs 1.8, Mc 1.6).  Ele é o novo Elias. Este recusou a religião estatal, corrompida e subvencionada por Jezabel. O Batista também está à margem da religião estatal, no seu contexto, o judaísmo. Mateus 3.7 registra seu pouco apreço por fariseus e saduceus, elementos presentes no judaísmo.  Jesus também entrará em choque com a religião estatal, que tinha como símbolo maior o templo, cuja destruição ele anunciará, em Marcos 13.2: “não se deixará aqui pedra sobre pedra que não seja derribada”.

A questão que se delineia em Marcos, desde o início, é esta: “vocês querem Deus?”. Pois bem, ele não está na pompa do templo, no judaísmo. Está no deserto. É no deserto que o Batista prega e batiza. E é do deserto que Jesus vem pregando o evangelho.

É de bom observar os dois limites do evangelho de Marcos. Ele começa no deserto (1.3) e termina no sepulcro (16.8), considerando-se que há uma discussão sobre a autoria de Marcos nos versículos de 9 a 20. Não entrarei em aspectos de crítica textual, mas ficarei por aqui. O evangelho não termina no templo. Na realidade, tangencia-o e anuncia o seu fim. Deus não está no templo, mas no Cristo à margem da pompa, no Cristo que vem do deserto, e termina ao lado da sepultura vazia. O sentido teológico é mais amplo, mas é relevante notar, neste contexto, que a cidade santa prometida nas páginas finais da Bíblia (Ap 1.1) é uma cidade sem templo, como se lê em Apocalipse 21.22.

Voltemos à chamada dos doze.  Ela sucede num monte: “Depois subiu ao monte, e chamou a si os que ele mesmo queria…” (3.13). Saímos do deserto e estamos num monte. Por que monte, agora?   Porque monte é o oposto de deserto.  Monte é o local das grandes revelações de Deus, das quais o Sinai é o exemplo mais forte na vida de Israel. Os momentos mais solenes da Bíblia estão mostrados nos montes. O Sinai, o Ebal e o Gerizim, o sermão do monte, a transfiguração, a grande comissão são os maiores exemplos. O que sucede num monte é algo relevante. É de lá que vem o socorro divino (Sl 121.1). Monte é também o lugar dos atos divinos. A escolha dos doze é feita num monte, não numa praia nem numa planície. É um ato divino, portanto. A chamada dos doze em um monte soleniza o evento. Torna-o relevante.

Mateus põe o início da escolha dos doze na ocasião precedente ao sermão do monte (Mt 4.18-22) embora, num segundo texto, em 10.1-4, narre a concessão de poder a eles. Sua linha de pensamento é clara: ele associa a escolha dos discípulos com a ética do reino, que é mostrada no sermão do monte.  Marcos não focaliza a ética do reino, neste contexto, mas a escolha dos doze, em si.  Este é o grande valor teológico, em Marcos, da chamada dos discípulos: Jesus escolhe os doze para que vivam com ele, participem da obra e ministério dele, sejam suas testemunhas e continuadores do seu trabalho. No v. 15 se lê que deu “autoridade de expulsar demônios”.  Eram estas as suas credenciais. Ele expulsara demônios, como lemos em 1.26 e 1.32.  E, em 1.27, a expulsão de demônios legitima a doutrina de Jesus, que é chamada de “nova” e “com autoridade”. Os doze recebem as suas credenciais, que mostravam que ele estava trazendo uma doutrina nova. Com Jesus há algo de novo entre os homens. E os doze continuarão, como Igreja embrionária, a mostrar que há algo de novo no mundo. A Igreja é a novidade de Deus para o mundo porque é a encarnação da verdade de Jesus aos homens. A Igreja, cujo embrião se vê nos doze, é a comunidade que continua o ministério do Salvador. Ela é o seu corpo, ou seja, ela é a sua presença neste mundo. Ele age e se manifesta ao mundo por meio da Igreja. Aliás, a declaração de Efésios 3.10 é espantosa e, ao mesmo tempo, clara: “para que agora a multiforme sabedoria de Deus seja manifestada, por meio da igreja, aos principados e potestades nas regiões celestes”. Principados e potestades celestiais conhecem a sabedoria de Deus pela Igreja. A Igreja deve ser fonte de sabedoria para o mundo.

 

QUEM FAZ PARTE DO EMBRIÃO

Vendo os doze, surge uma pergunta: quem são eles? As listas, nos evangelhos, trazem algumas variações. Alguns tinham mais de um nome, há nomes em aramaico e em grego, por exemplo, podem ser as explicações atenuantes. Mas isso é secundário. Não deve ser nossa preocupação porque é irrelevante. O fundamental é isto: eram pessoas diferentes. Dois são chamados de “filhos do trovão”, isso porque eram temperamentais, de gênio explosivo. Infelizmente, ainda há muitos filhos do trovão em nossas igrejas. Simão é chamado de “cananeu” em 3.18. Alguns interpretam como se fosse um zelote ou um guerrilheiro. Judas é chamado de Iscariotes. Segundo alguns, “homem de Queriote”. Seria o único não galileu, do grupo. Oscar Cullmann tem um livro chamado Jesus Cristo e os revolucionários do seu tempo[i] em que acena com a tradução de Iscariotes como “”homem sicário” ou  “homem do punhal”.  Seria, também, um guerrilheiro. Ao mesmo tempo, Mateus é cobrador de impostos, funcionário a serviço da estrutura social dominante. Em linguagem de hoje (não tão hoje, assim), teríamos um homem de esquerda e outro de direita. Um homem do poder constituído  e outro da contestação a este poder.

É outra lição a aprender sobre a Igreja de Jesus. Queremos uniformidade na Igreja. Ele quer diversidade. Valha-nos, aqui, o texto de 1Coríntios 12.27-30: Ora, vós sois corpo de Cristo, e individualmente seus membros. E a uns Deus pôs na igreja, primeiro apóstolos, em segundo lugar profetas, em terceiro mestres, depois operadores de milagres, depois dons de cura, socorros, governos, variedades de línguas. Porventura são todos apóstolos? são todos profetas? são todos mestres? são todos operadores de milagres? Todos têm dom de curar? falam todos em línguas? interpretam todos?

                Tempos atrás, fui pregar num congresso de jovens, em um determinado lugar. Chegou a hora que as pessoas de bom senso e de teologia sadia acabam temendo: a do louvor.  Abrindo parêntesis: sempre pensei que todo o culto fosse um ato de louvor, mas havia um segmento no culto chamado louvor. Fechados os parêntesis: lá estava o dirigente de louvor, de bom porte físico e barba (um direito seu, não é nenhum pecado), ensinando “Três palavrinhas só”. Queria que todos fizessem gestos, também. Sou um coroa, sou lacônico e seco. Não me sentiria ajustado, de maneira alguma, cantando um corinho para crianças de cinco anos, fazendo tralalalalala e encenando gestos. O rapaz queria um “culto descontraído”. Mas tal atitude me contraía. Fui tido como não espiritual porque não aceitei o padrão, até grotesco, do que é um cristão espiritual: cantar um corinho infantil e fazer gestos. É feio um marmanjo imitar criancinhas, mas a pessoa queria que todos fizessem a mesma coisa.

Sucede assim, muitas vezes. Temos um estereótipo e queremos que todos sejam pasteurizados por ele. Se alguém não se encaixa em nosso modelo, consideramo-lo carnal ou um crente de segunda classe. Igreja é lugar de diversidade. Não de cópias xerox. Aliás, tenho muito receio do que alguns entendem como “discipulado”: produzir pessoas idênticas ao discipulador.   Já vi jovens do Nordeste, discipulados por missionários norteamericanos, que se tornaram mais americanos que os missionários. Até seus maneirismos verbais foram assimilados: “Jesus disse, ahn, ah, que devemos… ”.  Não estou apostrofando os missionários nem seu mérito na obra de evangelização de nossa pátria, mas o conceito de discipulado de alguns que conheci: reproduzir pessoas à sua própria imagem e semelhança.

Ao lado do nome de Judas vem a expressão:  “aquele que o traiu”. Já na relação dos doze está presente a nota trágica de que a traição sucederá. E logo depois desta última expressão, encerrada a narrativa da escolha dos discípulos, vem a questão do pecado imperdoável. Não discuto a questão do que seja o pecado imperdoável, porque foge ao escopo do presente trabalho. Mas mostramos o seguinte: a escolha dos doze, Igreja embrionária, mostra que a Igreja não está num contexto róseo, mas sombrio. A estrutura de Marcos põe os doze num contexto de traição e de blasfêmia. Já no relato do surgimento do embrião, a traição, nuvem negra do evangelho, paira como algo deprimente.

Lucas 6.12-16 traz a relação dos doze. Ela é precedida pela declaração de que Jesus passou a noite em oração a Deus, antes da escolha.  Em minha Bíblia de estudos, anotei ao lado a pergunta: “e escolheu Judas?’. Foi a primeira questão que me veio à mente: passou a noite toda orando e escolheu o traidor? Teria falhado em oração? Orou mal ou o Pai não o orientou direito? Como sucedeu isto?

João 17.12 me deu a resposta à minha perplexidade: “… e nenhum deles se perdeu, senão o filho da perdição, para que se cumprisse a Escritura”.  Também não vamos discutir a questão de predestinação em Judas, como alguns gostam de fazer.  A questão é outra e é para ela que devemos atentar: desde seu embrião, a Igreja está sob o signo do mistério do mal. Ela não é imune a ele. Pelo contrário, ela o sofre. Não está numa redoma de vidro. A denominação que prega “pare de sofrer” tem uma visão teológica míope e deformada do mundo. A Igreja tem que conviver com o mal. Ele não a derruba, mas aflige. Ele a rodeia e não poucas vezes a invade. E muitas vezes a Igreja tem sofrido males terríveis.  Mas ela sobrevive ao mal. É divina em sua origem, por isso imbatível. Mas é sofredora.  Não se deve confundir a Igreja enquanto Militante com a Igreja Triunfante. Pensemos nesta palavra de Kierkegaard: “Aqui no mundo não é o lugar da tua igreja triunfante, mas somente da igreja militante. Mas se esta combater, ninguém a poderá expulsar do mundo, porque tu te fazes dela fiador. Se, ao contrário, ela cisma dever triunfar neste mundo: ai de mim, ela então é culpada se lhe subtrais a tua assistência, se ela desaparece, pois que se confundiu com o mundo”[ii].

Um olhar para quem faz parte do embrião da Igreja nos ajuda a sabermos mais sobre ela: é uma comunidade com diversidade, onde todos têm espaço e valor, devem viver em unidade e é também uma comunidade que enfrenta lutas e sofre o mal. Enfrenta lutas, mas tem um caráter imbatível

A FINALIDADE DA IGREJA NA CHAMADA DO EMBRIÃO

“Então designou doze”. O texto é bem claro: são doze. Por que não vinte, trinta ou cinqüenta? Por que doze é um número simbólico que traz consigo a ideia de unidade e totalidade do povo de Deus. Doze é o número de meses do ano, uma coisa completa. No peitoral do sacerdote, como se lê em Êxodo 28.21, havia doze pedras, uma para cada tribo de Israel, designando sua unidade, ao redor do culto. As próprias doze tribos de Israel eram treze, mas foram arranjadas geograficamente como doze, para atender ao aspecto místico do número. Em João 6.13, no que é chamado de “O grande discurso do pão”, onde Jesus se apresenta como o pão do céu que Moisés não conseguiu dar, o número de cestos de pães que sobra é doze. Não é acidental. Há doze tribos no Antigo Testamento. Há doze apóstolos no Novo. A simbologia do número doze também está presente no evangelho. A Igreja é a unidade e a totalidade do povo de Deus.

Não é difícil entender o que está sendo mostrado. A Igreja substitui Israel. Ela é o novo povo de Deus. Ela é a comunidade que traz em si as marcas de unidade e totalidade do povo de Deus. Também está estruturada sobre doze patriarcas, os discípulos, mais tarde apóstolos. E quando Judas sai do grupo dos doze, outro é escolhido para completar o número. É necessário que haja doze. Não há continuidade apostólica, como não houve continuidade patriarcal em Israel, mas devem ser doze. Saindo um, escolheu-se outro para que houvesse este número.

Diz ainda o texto que ele “chamou a si” os doze. E continua: “para que estivessem com ele”. No embrião da Igreja já está presente a definição do seu propósito: ela é chamada para viver com o seu Senhor, para ser sua possessão. De novo, a semelhança com Israel é mostrada. Em Êxodo 19.6, Israel é chamado para ser possessão de Deus. A finalidade maior da Igreja é vida com Deus. O alvo da Igreja não é o mundo, mas o seu Senhor. Por isto que a missão principal, maior, da Igreja não é a evangelização. É a adoração. Ela não existe em função do mundo, mas do Senhor Jesus. Não céu não haverá pecadores perdidos para evangelizar, mas haverá Igreja. Porque haverá Deus. Ele é nosso alvo primeiro e nossa paixão maior. Voltaremos a tratar desta questão da missão da Igreja, mais à frente.

Marcos ainda enfatiza que ele “chamou a si os que ele mesmo queria”. É um ato pessoal e soberano do Senhor. E mais uma vez somos lembrados de que o mesmo fora feito com Israel. Em Deuteronômio 7.6-8, Israel tornou-se povo de Deus não por mérito, mas porque o Senhor quis em sua soberania e seu amor eletivo. A soberania e o amor eletivo de Deus estão também na base da chamada dos que viriam a ser a Igreja. O verbo hebraico para amor eletivo é ‘ahab. É o amor que escolhe um ou mais dentro muitos, sem levar em conta o valor do escolhido. É porque o escolhedor assim deseja.

Trata-se de uma escolha eletiva para a Igreja vir a ser possessão de Deus. Mas há coisas mais para ver. Ele os enviou a pregar e lhes deu autoridade para expulsar demônios. Pregar era sua missão e a expulsão de demônios era a mostra de sua autoridade que credenciava seu ministério. Ele as transfere à sua Igreja. Em Mateus 12.28, em polêmica com os fariseus, a expulsão de demônios é a prova que ele exibe aos seus opositores de que o reino chegou: “Se é pelo Espírito de Deus que eu expulso os demônios, logo é chegado a vós o reino de Deus”.  Na figura do seu embrião, a Igreja recebe poder sobre os demônios. Ela é a continuadora da propagação do reino e é ela a parte visível do reino posto entre os homens. E tem autoridade sobre demônios, sobre o poder das trevas, e precisa exercê-la. Isto não significa a espetáculo circense que muitas vezes se vê em certos segmentos evangélicos, em que o demônio é o centro do culto, roubando o lugar de Jesus, suplantado apenas pelo exorcista. Significa, sim, que a Igreja tem poder sobre o mal. “Maior é o que está em vós do o que está no mundo” (1Jo 4.4). Há um espírito maligno no mundo (1Jo 5.19), mas a Igreja é maior que o mundo. Este nunca a vencerá.

A Igreja não é um mero corpo social, fenômeno sociológico explicado por leis humanas. Não é produto de uma filosofia comportamentalista ou política. Ela é uma proposta da parte de Deus aos homens. Uma proposta que ele apresenta e que ela deve expressar muito bem em sua pregação e em sua vida. Ela deve exibir ao mundo o propósito divino para a humanidade. Ela deve expressar a misericórdia de Deus aos homens. Por conseguinte, deve ter uma profunda consciência de sua utilidade para consecução do propósito divino.

Ser Igreja é fantástico. É estar inserido dentro de um plano bem elaborado por Deus, concatenado antes da fundação do mundo (Ef 1.4). É ter a responsabilidade de representar Deus junto aos homens. Mas é ter uma garantia fantástica: a Igreja será vencedora. Ela nunca será derrotada.

 

 

CONCLUSÃO

O conceito de Igreja tem sido bastante maltratado, hoje.  Como dito no início, enxerga-se Igreja por várias óticas, sendo que duas delas tangenciei neste capítulo: comportamentalismo e política, por exemplo. Outros mais a veem por uma ótica hedonista, em que ela existe para tornar os homens felizes, com suas consciências aplacadas. Sua estrutura organizacional e até mesmo seus cultos são planejados de tal maneira que as pessoas devem sair satisfeitas das reuniões.  Isto é feito para atender a uma classe média que tem uma filosofia de vida e encontra um eco dela na Igreja. As marcas de uma sociedade hedonista, que busca o prazer como o bem maior, e de uma sociedade de consumo que adora comprar novidades e coisas boas, têm tornado muitas igrejas locais em grupos com reuniões sociais com tintura religiosa. Todos ficam felizes após a reunião. Ouviram coisas boas e tiveram seu ego massageado. Um supermercado espiritual: “compre o que você quiser. Nossa finalidade é atender às suas necessidades” (que não são tão necessárias assim). É a igreja local que pesquisa junto ao público para saber o que o público espera dela, para então oferecer o produto. Infelizmente há quem “venda” o evangelho como quem vende creme dental ou sabonete. Tudo isto é um equívoco lamentável. Uma desfiguração do evangelho e da Igreja de Jesus.

A Igreja deve ser analisada por uma ótica teológica. Ela é algo solene, de origem divina. Ela é um grupo que tem uma diversidade que deve ser respeitada e preservada, porque isto faz parte do propósito do seu fundador. E deve buscar e manter, nesta diversidade, uma unidade de propósito, porque seu fundador também estabeleceu essa condição como essencial para o seu trabalho. A Igreja deve ter uma profunda autoconsciência, noção de si mesma, para não perder seu rumo. Ela vive e floresce no meio das lutas e à sombra do mal que a rodeia. Não o teme, até mesmo porque os problemas são o seu adubo. E deve nutrir uma consciência muito profunda de que é propriedade do Senhor Jesus, que foi chamada por ele para viver com ele, num ato de soberania divina. E tem uma missão: anunciar aos homens que o reino chegou. Que por ele e nele, Deus está propondo aos homens um novo estilo de vida, que se reconciliem com ele e também uns com os outros.

Isto pode ser visto no embrião da Igreja. Isto é a Igreja. Isto vale para nós, ainda hoje. E valerá sempre. São as linhas mestras da essência da Igreja, linhas que ela não pode perder, sob pena de deixar de ser Igreja.

 

 



[i] CULLMANN, Oscar. Jesus e os revolucionários de seu tempo. Rio de Janeiro, Vozes, 1972, 55 p.

[ii] KIERKEGAARD, Soren. Das Profundezas.  S. Paulo, Paulinas, 1990, p. 83.