Palestra 3 – UMA IGREJA SEMPRE SE REFORMANDO

PALESTRA PREPARADA PELO PR. ISALTINO GOMES COELHO FILHO PARA O SEMINÁRIO TEOLÓGICO BATISTA GRAPIUNENSE

 

E ele deu uns como apóstolos, e outros como profetas, e outros como evangelistas, e outros como pastores e mestres, tendo em vista o aperfeiçoamento dos santos, para a obra do ministério, para edificação do corpo de Cristo; até que todos cheguemos à unidade da fé e do pleno conhecimento do Filho de Deus, ao estado de homem feito, à medida da estatura da plenitude de Cristo; para que não mais sejamos meninos, inconstantes, levados ao redor por todo vento de doutrina, pela fraudulência dos homens,  pela astúcia tendente à maquinação do erro; antes, seguindo a verdade em amor, cresçamos em tudo naquele que é cabeça, Cristo. (Efésios 4.11-15).

Uma das propostas de Lutero sobre a Igreja é que ela estivesse sempre se reformando, sob a ótica das Escrituras. O reformador entendeu a facilidade com que nos engessamos por tradições. E, como surgem inovações com Constancia, a facilidade com que a Igreja poderia se desviar da rota.

A Igreja é uma comunidade que, moral e espiritualmente, não está estagnada. Se, eventualmente, alguma comunidade cristã assim estiver, está perto do fim. A Igreja deve buscar a perfeição. O texto de Efésios 4.11-15 serve de parâmetro para este processo. O Senhor a agraciou com uma diversidade de dons, aqui mostrados em termos de funções, para seu aperfeiçoamento.

 

UM ASPECTO A CONSIDERAR

Em Efésios, livro em que estou pregando desde novembro do ano passado, é possível verificar que a Igreja é a sociedade do futuro. O homem novo que Mao Tse Tung quis criar, que Huxley procurou mostrar em O admirável homem novo e que  outros ficcionistas como Arthur Clarke desenharam, principalmente em  O fim da infância, Jesus Cristo fez. “Se alguém está em Cristo, nova criação é” (2Co 5.17). O futuro por séculos ansiado pela humanidade chegou em Jesus Cristo e, pelo trabalho da Igreja, que é a sua presença na terra, se vai espraiando.

Efésios 2.11-22 é a melhor declaração sobre a Igreja como o povo do futuro, o novo povo de Deus, em substituição a Israel. Israel era o passo inicial, o rascunho, do projeto de Deus. A Igreja é a consecução do projeto. Em 1Pedro 2.9-10, o apóstolo aplica à Igreja quatro títulos que eram da nação israelita: geração eleita, sacerdócio real, nação santa e povo adquirido. Em 1Pedro 1.1, os cristãos são chamados de “peregrinos da dispersão”, título que fora dado aos israelitas dispersos pelo mundo em algumas diásporas. Agora estes títulos pertencem à Igreja. Ela é a geração eleita, o sacerdócio, a nação santo, o povo adquirido e a comunidade peregrina dispersa pelo mundo.

Efésios 2.11-22 mostra quão revolucionário foi o conceito de Igreja, na época. Num mundo marcado pelo ódio racial, surgiu um novo povo, bem distinto dos demais: sem etnia, sem geografia, sem uma língua unificadora e característica.  As barreiras caíram e o ódio entre as pessoas deveria ser abolido. O nacionalismo xenófobo cedeu lugar ao amor como padrão de relacionamento.

Para se compreender o que isto significou, lembremos dois provérbios dos judeus sobre os gentios. O primeiro: “maldita seja a parteira judia que ajuda uma gentia a dar à luz. Maldita seja duas vezes: porque ajudou um gentio e porque pôs um gentio no mundo”. O outro: “Deus fez os gentios para serem o combustível do fogo do inferno”. Sobre as mulheres diziam os judeus: “É melhor queimar os livros da lei do que permitir que uma mulher os aprenda”.  No entanto, com o advento da Igreja, lemos em Gálatas 3.28 que “em Cristo não há judeu nem grego… nem homem nem mulher”. As diferenças sexuais permanecem (felizmente), mas todos são um em Cristo. Ninguém é superior ao outro por sua raça ou por seu sexo. Nem por sua posição social. Ao escrever a Filemon sobre o escravo Onésimo, Paulo trata a ambos como irmãos em Cristo e propõe ao senhor de escravos a aceitação desta situação.

Entre os gentios, a situação não era melhor. Um homem do porte de Platão dava graças por ter nascido grego e não bárbaro, homem e não mulher. Mas Paulo disse aos gregos que Deus, de um sangue só fez toda a raça humana (At 17.26). À luz disto, não existem as raças branca, negra e amarela. Só existe uma raça, a humana. E também do ponto de vista espiritual, só há uma raça também, feita de um só homem, de um só sangue. Em Romanos 5.12-21, Paulo fala de duas humanidades que coexistem no mundo, a humanidade em Adão e a humanidade em Cristo. Esta última é a humanidade final, a definitiva, a de amanhã. É a Igreja.

Em Mateus 21.43, Jesus diz que o reino será tirado dos judeus e dado a outro povo: “Portanto, eu vos digo que vos será tirado o reino de Deus, e será dado a um povo que dê os seus frutos”. A Igreja é este povo a quem reino seria dado. Efésios, um excelente tratado de eclesiologia, tem duas divisões bem claras. A primeira, que vai de 1.3 a 3.21, tem como tema o propósito eterno de Deus de reunir todas as coisas em Cristo. Em Cristo, uma nova humanidade foi criada. A segunda parte, a partir de 4.1, trata das relações éticas que devem nortear a vida desta nova sociedade. A Igreja é uma criação nova, com valores novos.

 

O PROCESSO DE REFORMA CONTÍNUA

Entretanto, esta nova humanidade não é perfeita. Está implantada, mas não aperfeiçoada. O reino está implantado, mas não aperfeiçoado. Deve sê-lo até a medida da plenitude de Cristo, como se lê em Efésios 4.13. Enquanto isto, a Igreja vive numa tensão, a do e do ainda não. Vejamos a observação de Stott sobre esta questão: “A tensão faz parte do dilema cristão do ‘já’ e do ‘ainda não’. O reino de Deus foi inaugurado e está avançando; mas ainda não foi consumado. A nova era (o mundo vindouro) já chegou, de modo que temos provado ‘os poderes do mundo vindouro’; mas a era antiga ainda não passou completamente. Já somos filhos de Deus e não mais escravos; mas ainda não entramos ‘na liberdade da glória dos filhos de Deus’” [i].   É um período em que a Igreja sabe o que será, mais sabe que ainda não é o que será. E caminha para o alvo. Algumas coisas dependem do tempo de Deus. Outras dependem de seu trabalho e de seu testemunho.

Para cumprir este propósito de firmar o reino, a Igreja precisa cuidar de si. Sobre isto, cito Tozer que merece nossa consideração: “A noção popular de que a primeira obrigação da igreja é disseminar o Evangelho até os confins da terra é falsa. A sua primeira obrigação é ser espiritualmente digna de disseminá-lo”[ii] . A Igreja tem a tarefa de dizer à humanidade que há uma proposta de Deus para que este mundo se transforme. Mas antes de fazê-lo, ela mesma precisa ser transformada. Ela precisa mostrar ao mundo que incorporou em sua vida a mensagem que está pregando.  E se assim não o faz, não tem credibilidade. Esta é uma palavra chave no processo de relacionamento da Igreja com o mundo, em nosso tempo. Mais que em qualquer outra época, antes de ouvir o evangelho, o mundo quer vê-lo encarnado na vida do pregador.

Creio firmemente que esta palavra é chave: credibilidade. A Igreja precisa mostrar se ela é séria ou uma arapuca para extorquir dinheiro dos incautos e construir um império. Precisa mostrar se ele vive o que prega. Se sua mensagem funciona. Sabemos que estamos no ainda não e que nos falta muito para a perfeição. E a busca da perfeição, alvo que todo cristão deve traçar para si, não vem por ritos, liturgia ou êxtases. É uma longa luta, é um processo.  É o processo de constante reexame orientado pelo Espírito Santo. Para que ele suceda, há alguns passos que julgo necessário apontar.

 

PASSOS IMPORTANTES NO PROCESSO DE CONSTANTE REEXAME

Alisto três pontos importantes para o processo de reexame. São a base do processo.

O primeiro é um conceito correto do evangelho. Ele não é apenas uma mensagem, entre muitas outras existentes. É a única mensagem válida. Sua proposta abrange muito mais que salvação pessoal. Ele é a proposta de Deus que põe ordem no caos criado pelo pecado. O evangelho tem sido rebaixado por uma espiritualidade deficiente. As pessoas são chamadas para deixar o mundo e se refugiar num prédio chamado de “igreja”, para correntes de bênção, de prosperidade, do cajado de Moisés, da espada de Josué, dos setenta pastores, para receberem um vidrinho de óleo trazido do Monte das Oliveiras, e até (prática assumida do baixo-espiritismo) para receberem um saquinho de sal grosso, alegadamente vindo do mar Morto, para “descarrego”.  O evangelho deixa de ser um chamado à luta, para transformar o mundo, e se torna uma ideologia hedonista. Passa a ser como enriquecer, como ter coisas, como ser feliz, como se apossar das riquezas do ímpio, etc. É uma concepção utilitária, e não serviçal da vida cristã. O evangelho não é isso. É a proposta de Deus para que os homens se reconciliem com ele e uns com os outros. É a única saída que dos homens para viverem bem. Sua mensagem é global, envolve toda a vida e não apenas a alma. Envolve o caráter e não apenas os bens. Tem efeitos micros e efeitos macros. Age no indivíduo e age na sociedade. É para a pessoa e para o mundo.

O segundo é um conceito correto de si.  Igreja não é um lugar de reunião. Ela é gente, gente comum, como as demais, embora com uma compreensão diferente do mundo. Deve ter consciência de que é a segunda criação de 2Coríntios 5.17. E procura marcar a humanidade caída com os valores da humanidade redimida.

Algumas comunidades evangélicas têm surgido ao redor de pessoas pouco preparadas ou, até mesmo, pouco equilibradas, de práticas litúrgicas, de “rachas” pouco éticos, e até, por incrível que pareça, ao redor de livros evangélicos que podemos chamar de “sabrinas evangélicas”.  Por exemplo: um grupo estava se preparando para organizar uma comunidade ao redor do livro Este mundo tenebroso, uma obra de ficção escatológica. O grupo já estava orando aos anjos, como intercessores (o que o livro não ensina, diga-se). Há muita confusão, muita visão fragmentária do reino, porque há igrejas ao redor de um aspecto do evangelho, como cura, pré-milenismo, Israel, dons, etc., sem nutrir uma visão global da mensagem cristã. Uma visão global, holística, do evangelho é fundamental que a Igreja encete o processo de reexame. Assim, ela sabe seu rumo e caminha segura para ele.

O terceiro é o conhecimento correto dos meios para consecução do propósito. Não somos jesuítas, para quem os fins justificam os meios. Há igrejas que estão apresentando o evangelho como quem vende creme dental. Técnicas de publicidade são empregadas como substitutas da autoridade espiritual e do poder do Espírito Santo. Por vezes, fala-se mais de qualidade total do que de lisura e ética nas relações. Esquecemos que acima de técnicas, o trabalho da Igreja sobressai pelo seu caráter. E que nós devemos viver o que pregamos.

Um exemplo desta falta de lisura: numa campanha de evangelização, os conselheiros foram orientados para irem à frente quando o pregador começasse o apelo, como se fossem convertidos e não como se fossem conselheiros. Assim, os ouvintes que estivessem indecisos acabariam se decidindo, vendo tanta gente ir à frente. Isto é manipulação. Outra igreja colocou uma faixa, em sua frente: “Aqui, o seu dízimo é apenas 7%” (sim, não é mentira, aconteceu mesmo!) Em outra, ainda, os pastores estavam ensaiando expulsão de demônios, com os mais experientes ensinando aos novos como empurrar, como cair, o que dizer, etc. Os “endemoninhados”  eram obreiros da própria igreja!

A falta de autoconhecimento da Igreja e a ausência de ética criam o culto personalista em nosso meio. Aliás, o culto à personalidade é umas maiores aberrações no cenário evangélico hoje. Há líderes que se promovem grotescamente. Vemos, então, uma variação de uma antiga oração feita pelos crentes do passado, quando intercediam pelo pregador: “Esconde o teu servo atrás da cruz de Cristo”. Hoje parece ser “esconde a cruz de Cristo atrás do teu servo”.  Por tudo isso, o caminho para o reexame da Igreja passa por alguns meios que apresento aqui.

 

OS MEIOS PARA CONSECUÇÃO DO PROPÓSITO DO REEXAME

Aponto cinco meios. Mas eles se resumem a uma só palavra: mutualidade. O egoísmo da antiga humanidade, mostrado na atitude de Adão, em salvar a sua pele e jogar Eva às feras, na célebre frase ”a mulher que tu me deste”, não deveria existir na nova humanidade. A Igreja precisa viver em unanimidade. Quando ensinou aos discípulos a oração modelo, Jesus a iniciou com “Pai-nosso” e não com “meu pai”. Nesta oração, não há a primeira pessoa do singular e se usa a primeira do plural.

Diferentemente de Jesus, o louco da história de Lucas 12.13-21, só fala “eu, meu, minha”. No discurso do insensato não se reserva espaço para a primeira pessoa do plural. Só para a primeira do singular. É típico do homem mesquinho.

O primeiro meio é um ambiente sadio. Há igrejas que atraem desequilibrados, mas que não os transformam nem mexem nas estruturas do mundo. Há igrejas neuróticas, onde se caçam demônios do início ao fim do culto. Há igrejas que criam ansiedade em vez de ensinar a pessoa a descansar nas promessas de Deus. Usando uma consideração de Caio Fábio, pode-se dizer que “há igrejas que são usinas de neuroses” [iii].  Uma coisa curiosa que bem exemplifica isto: o líder de uma dessas missões que, orgulhosamente, proclama viver pela fé, contraiu uma úlcera nervosa.  Pus-me a pensar: a missão vive pela fé, mas seu executivo, pela angústia. A Igreja precisa ser sadia, equilibrada, não neurotizando as pessoas nem se neurotizando. O evangelho é graça e não desespero.

O segundo meio é confiança mútua. Em Tiago 5.16 há uma recomendação para que confessemos nossos pecados uns aos outros. A Igreja deveria ser uma comunidade em que houvesse tanta confiança uns nos outros que uma pessoa poderia abrir o coração para outra e contar suas fraquezas, seus pecados, para ser ajudada. Mas o legalismo triunfou sobre a misericórdia e a delação sobre a compreensão. Confesse seus pecados a um irmão e logo depois uma comissão de disciplina virá visitá-lo. É como nos filmes policiais norte-americanos: “tudo o que você disser poderá ser usado contra você”. Mas o princípio de vida deve ser de confiança e não de intolerância ou desconfiança. Deveria haver ajuda e não hostilidade.

O terceiro meio é a visão do todo. Havia uma pessoa, em uma determinada comunidade cristã, cujo trabalho estava sendo muito problemático em sua igreja. Era gente de bom relacionamento, mas sua maneira de agir estava criando divisões na igreja. Era o tipo de jogador de futebol que joga para a plateia e deixa os colegas na mão, tendo eles que dividir todas na “zona do agrião”.  Trabalhava com os adolescentes a quem chamava de “meus meninos”, “minhas meninas” e usava a expressão, para eles, nos seguintes termos: “Vocês sabem, eu penso assim como vocês, mas a igreja tem uma visão muito bitolada”.  E vivia se queixando de que a igreja não o apoiava, o pastor não lhe dava apoio, aquela choradeira que muitos de nós já conhecemos. Até que um dia o pastor o chamou e lhe disse: “Irmão, a igreja não tem que apoiar o seu trabalho. É o irmão que tem que apoiar o trabalho da igreja. Seu trabalho não é uma coisa à parte. Está inserido num todo. E não são os seus meninos nem as suas meninas. São os meninos e as meninas da igreja. A igreja tem uma visão, uma linha de ensino e de conduta e o seu trabalho é educar nossos meninos dentro desta visão”. Afastado o irmão, os adolescentes se reintegraram na igreja. Mas dezenas se perderam, no mundo, com a postura tomada anteriormente. O problema não era a igreja, mas o personalismo do líder, que não via o todo, só seu trabalho. Punha sua visão pessoal como correta e a sobrepunha à dos outros. Esta visão de que as partes devem se subordinar ao todo é necessária. É necessário ter uma visão mais global e menos personalista do ministério da Igreja no mundo.

O quarto meio é o auto-serviço. Eis 1Coríntios 12.25-27: para que não haja divisão no corpo, mas que os membros tenham igual cuidado uns dos outros. De maneira que, se um membro padece, todos os membros padecem com ele; e, se um membro é honrado, todos os membros se regozijam com ele. Ora, vós sois corpos de Cristo, e individualmente seus membros.  Chamo a atenção para a expressão “todos se preocupem uns com os outros”. O texto está no trecho que trata dos dons (1Co 12-14). Logo no início fica claro que os dons são para proveito comum (1Co 12.7). No dizer do texto de Efésios, “para que todos cheguemos a unidade da fé e do pleno conhecimento do Filho de Deus” (4.13) e para que “cresçamos em tudo naquele que é o cabeça, Cristo” (4.15). A Igreja não pode ser um trampolim para egos carentes e personalidades vaidosas, mas sim um lugar de serviço mútuo, para ajuda aos outros, com uma visão dadivosa da vida.

O quinto meio é a unanimidade. Em Atos, uma das palavras que mais caracterizam o relacionamento na Igreja é “unânimes” e seus equivalentes e sinônimos como “todos”, “como um só homem”, “uma só voz”. A Igreja tinha diversidade cultural, mas era homogênea em propósito e em visão. O bem-estar da Igreja passa, necessariamente, por um espírito de unanimidade. Não é que tudo seja decidido por aclamação, mas sim que todos aprendam a ceder. Numa igreja onde fui pastor, uma irmã que fora voto vencido num assunto, bradou no culto administrativo: “Vocês todos estão errados. E vão ver só. Ainda vou chegar aqui e dizer: eu não disse?”. Sim, isso aconteceu. E não foi numa reunião de sindicato ou de condomínio, mas numa igreja. O tempo, depois, mostrou que a igreja estava certa, e o irmão errado. Em contrapartida, ouvi um diácono da PIB de Manaus dizer o seguinte: “Eu pensava de outra maneira, mas já que a igreja decidiu assim, agora eu penso como a igreja”. Isso é unanimidade, produto de madureza espiritual. É oportuno registrar que o clima de unanimidade na Igreja foi quebrado por Ananias e Safira. A dupla quis ser mais que os outros. Sua punição foi a morte.

Dirá alguém que deixei de lado a questão do poder espiritual, da comunhão com Deus. Não se pense assim. Na realidade, a comunhão com Deus e a espiritualidade são a força motriz da mutualidade cristã. Somente pessoas que têm uma vivência real com Deus podem abrir o coração e a vida para os outros.   Como bem definiu o teólogo Manson, “a essência do pecado é o egoísmo”. E, na continuação de seu arrazoado, explicava ele que o pecado é abolição dos dez mandamentos e a instituição do décimo primeiro: “tu te amarás a ti mesmo sobre todas as coisas” [iv] Somente uma pessoa que viva com Deus terá prazer em ser serva, ser amiga, mostrar amor e dar de si aos outros. A mutualidade pressupõe e não elimina a espiritualidade.

 

CONCLUSÃO

A Igreja é a face visível da nova criação, a expressão da nova sociedade que Deus estabeleceu entre os homens, em Cristo. Ela tem um desafio: a busca da perfeição. Esta é uma das facetas da sua vocação. Para isto ela necessita de uma visão correta do evangelho, uma visão correta de si mesmo e dos meios à sua disposição para alcançar o fim pretendido.

Esses meios são a criação e a manutenção de um ambiente sadio, o espírito de confiança mútua, a visão do todo ao qual as partes devem se  subordinar, o autosserviço que mostra desprendimento, e a unanimidade que produz a paz. Isso se resume a uma palavra: mutualidade. É neste espírito que a Igreja deve sempre examinar-se para vir a ser uma comunidade madura e exemplar venha a acontecer. Para a glória de Deus. Para nosso bem-estar e para nossa realização como povo de Deus.

 



[i] STOTT, JOHN.  A cruz de Cristo, Miami, Editora Vida, 1991, p. 216

[ii] TOZER, A . W.  De Deus e o homem, S. Paulo, Mundo Cristão, 1981,  p. 29

[iii] D’ARAÚJO. Caio. Novos ministros para uma nova realidade, p. 38.

[iv] MANSON, O ensino de Jesus, S. Paulo, ASTE, 1965, p. 301