TEMPO DE GANGORRA

Isaltino Gomes Coelho Filho

Fiquei encantado com o livro Tempo de gangorra, de Saïd Farhat, que é “uma visão panorâmica do processo político-militar no Brasil de 1978 a 1980”, como indica o subtítulo. Foi difícil comprá-lo. Em Macapá não há livrarias. Fui procurar fora do estado (se não há livraria em Macapá, muito menos no resto do estado) e custei a encontrá-lo por que o livro tem sido boicotado. Um vendedor de uma rede de livrarias, em S. Paulo, me disse claramente que eles não venderiam o livro. Alguns democratas liberais são muito patrulhadores. Comprei-o na Cultura, na Av. Paulista, em Sampa.

Farhat sabe escrever. Um português castiço, escorreito, que compensa o tanto de maltrato que o idioma sofre hoje. Como doem o gerundismo, o “mim fazer”, o “previlégio” e “O Brasil ele é um país”, o triste sujeito pleonástico popularizado pelo maranhense-amapaense Sarney, não sei como da Academia Brasileira de Letras! Na obra, abundam frases em latim, francês, citações literárias e bíblicas, que enriquecem o livro e mostram que Saïd é um erudito. O relato é subsidiado por vasta documentação, que lhe dá credibilidade. É objetivo e histórico (não pelo viés marxista de reescrever a história). Seu teor lembra muito Castello Branco, o presidente reformador, de John Dulles, editado pela Universidade de Brasília.

Os militares têm sido execrados na mídia e as forças armadas têm sido enxovalhadas por conta de excessos da linha dura (que Farhat reconhece ter agido, mas que foi contida por Geisel e Figueiredo). Fala-se muito das torturas e mortes que o regime causou. Lamentáveis, diga-se. Como o são as que o poder civil causou e tem causado. Basta ver o livro Falta alguém em Nuremberg, de David Nasser, denunciando as torturas na ditadura civil de Getúlio, o “ditador pai dos pobres” (ditadores adoram ser pais e mães de alguma coisa). E também os assassinatos nunca solvidos de Toninho do PT e Bruno Daniel, por questões políticas. Satanizar os militares e canonizar os civis não é a melhor política. Os mesmos erros de um grupo estão no outro. São inerentes a homens caídos que ambicionam o poder.

Não desejo emitir juízo de valor sobre o regime militar. O que me chamou a atenção no livro é que Saïd mostra muito o senso de missão e de dever impregnados na cultura militar. Eles são orientados a servirem a pátria, e não a se servirem dela. Na obra O celeste porvir – a inserção do protestantismo no Brasil, Antonio Mendonça sociologiza sobre os nossos hinos e alude aos que têm teor militar, que ele chama de “protestantismo guerreiro”. Cristo é Comandante, General, Capitão e os fiéis são chamados a se alistar e a lutar contra o inimigo e seus batalhões. Eles refletem uma época, uma determinada cultura. Produto de uma visão militar do reino de Deus. Mas me parece que são de uma época em que havia disciplina, ideais e disposição de servir por parte de quem os cantava. Hoje os cânticos falam de ser adorador, uma atividade que é desempenhada com as pessoas levantando os braços e fazendo cara de quem está sentindo dores de cálculo renal. Engajamento, autodoação, desprendimento, disciplina na vida, estas coisas hoje não se cantam. Quem fala delas é visto como anacrônico, anticultural, fundamentalista (algo semelhante a comer bebês com sucrilho no café da manhã). Acho que quando tínhamos visão militar nos cânticos tínhamos mais seriedade porque tínhamos mais senso de dever. A ausência deste sentimento de compromisso em grande parte dos crentes, hoje, me surpreende.

Isto me intriga. Após meio século como membro de igreja (batizado que fui na entrada da adolescência) vejo uma grande diferença entre a igreja em que ingressei e a que vejo hoje. Não se trata de saudosismo. Há coisas muito melhores hoje. Mas a diferença a que aludo é a falta de compromisso e de dadivosidade atuais. As pessoas querem receber e não se doar. Querem benefícios e não servir. Parcela considerável dos crentes não tem ideais, mas uma lista de desejos materiais.

Ler Farhat me fez ver que a visão de compromisso e de serviço sem almejar benefício pessoal é uma virtude militar. Que nós, crentes em Jesus, tínhamos. Isto me impressionou muito, quando me converti, porque eu procurava uma causa pela qual lutar. E, me parece, muitos de nós não temos mais. Infelizmente. Tivesse a erudição de um Gouveia, iria sociologizar sobre isso: os cânticos do protestantismo guerreiro falavam de serviço. Os de hoje são abstratos e esotéricos. Há gente voando nas asas do Espírito, mergulhando e bebendo dos rios, mas escasseiam-se os servos e os amantes da igreja. Que pena!