Arquivo mensais:agosto 2009

A Reflexão Filosófica De Hagar, O Horrível

Isaltino Gomes Coelho Filho

“Hagar, o horrível” é uma tira cômica publicada em vários jornais do mundo. Ele é um viking devidamente caracterizado. Na cabeça, um elmo com chifres, é gordo, e sempre partindo para batalhas. Ausente como pai e marido, bebedor de cerveja, com um escudeiro que, por vezes, parece uma toupeira, de tão burro, e em outras, um gênio, pelas tiradas. A esposa é Helga, mostrada como matriarca. Tem uma filha, bonita, loira, e um filho tímido que gosta de ler poesia, sendo o oposto do pai.

Presentemente, leio-a no “Jornal de Brasília”. A tira de 7 de agosto foi genial. Apenas dois quadros. No primeiro ele pergunta “Sabem o que realmente define quem é ‘o chefe da família’?”. No segundo, Helga e os dois filhos estão abraçados a ele, enquanto um KA-BOOM em letras garrafais mostra um trovão. E ele diz: “É aquele no qual todos se agarram na hora da tempestade”.  Dick Browne, o autor das tiras, foi felicíssimo. O papel de um homem, como chefe de família, é prover segurança para todos. Continue lendo A Reflexão Filosófica De Hagar, O Horrível

Um conceito bíblico de ética

Isaltino Gomes Coelho Filho

Na língua hebraica não há uma palavra específica que corresponda ao conceito de ética entre os ocidentais. O mais próximo seria hallakah, do verbo halaq, que significa “andar”. Para os hebreus, a vida era uma caminhada, o que se pode ver no Salmo 1, e viver bem demandava saber andar corretamente. Isto também se entende da ordem de Deus a Abraão: “Anda em minha presença; e sê perfeito” (Gn 17.1).

Mas não se anda nu. Anda-se vestido. Pelo menos no tempo bíblico. Por isso que o Apocalipse diz que o linho (um dos tecidos mais elegantes da época) são as boas ações do povo de Deus (Ap 19.8). Em contrapartida, o pecado se associa com a nudez (Gn 3.7 e Ap 3.18). Andava-se vestido, e bem vestido. Tanto física quanto moralmente. Continue lendo Um conceito bíblico de ética

Ética na família

Parece sem sentido falar de ética na família. O que seria isto, exatamente? Precisamos de ética no trabalho, na política, na vida com outras pessoas. Mas, na família? Seria alguém desonesto na família? Prejudicaria os outros, conscientemente? Fraudaria os demais?

Sem hesitar: sim.  Há uma grande necessidade de ética na família. Ela é, hoje, sabotada em um processo de desconstrução, em que se procura derrubar o que está estabelecido e nada deixar em seu lugar. Muitos cristãos colaboram para isso. Ela é dada como ultrapassada, como reacionarismo social e como opressora, por querer limites. Já observou o esquema das novelas? Os adultos são sempre mostrados como hipócritas, e os jovens como idealistas. Os jovens dão broncas homéricas em seus pais, que são figuras patéticas, sem rumo. Os jovens têm todos os direitos, e os adultos, todos os deveres.  Os jovens não têm deveres e os adultos não têm direitos. A mensagem é a mesma da década dos sessentas: “Não confie nos adultos, menos ainda em seus pais”. O objetivo é claro: destruir é establishment. Muitas das bandeiras sociais hoje desfraldadas já aparecerem na história. Não são bandeiras. São mortalhas. Continue lendo Ética na família

Crença e conduta

Isaltino Gomes Coelho Filho

A epístola aos Romanos é considerada como um tratado de teologia sistemática. Paulo segue uma linha muito coerente na forma de ordenar seu pensamento. Primeiro, a humanidade em pecado. Depois, a fidelidade de Deus. Apresenta, a seguir, a justificação pela fé, e gasta bom espaço para falar da salvação. Mostra como Deus salvou os gentios pela fé. “E os judeus, perguntará alguém? Ele trata disto no capítulo 11. E assim encerra a discussão teológica.

Esta é a primeira parte da epístola. Então começa a segunda, no capítulo 12. Começa com um “Portanto” (v. 1), e passa a tratar da ética cristã. A ordem é bastante coerente. Primeiro, a teologia. Depois, a ética. Primeiro ele trata do que deve ser a nossa fé e depois de como deve ser nossa conduta. O ensino é claro: o que uma pessoa crê afeta seu modo de vida. Não se pode crer em algo e viver o seu oposto. A fé ou doutrina traz um estilo de vida. Muita gente não entendeu isso. Acha que basta crer, que está salva e que como Deus perdoou seus pecados, pode viver de qualquer maneira. Não importa o que faça. A graça perdoou os pecados do passado, e perdoará os do presente e os futuro, até mesmo aqueles que estão sendo planejados.  Isto é anomia, como falamos no boletim passado.  O cristianismo é uma fé profundamente ética. Não é comportamental, mas traz em si um comportamento, um conjunto de valores.

Por força do misticismo da nova era, e de sua espiritualidade oriental na linha hindu, do adorador se diluir no Adorado, muitos cristãos pensam que seguir a Cristo é ter êxtases e entrar em transe. Muitos de nossos cânticos parecem ensinar isto: seguir a Cristo é uma viagem espiritual, cantada em termos obscuros e esotéricos. Por isso se vê cada vez menos o anúncio da cruz, do perdão dos pecados e a chamada à santificação. Temos muito louvor e pouca santidade. Porque não enfatizamos a ética. Continue lendo Crença e conduta

A missão da igreja e a capacitação ministerial

Pr. Isaltino Gomes Coelho Filho, preparado para a Aula Inaugural do CCC ABAME, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, dia 3 de agosto de 2009

INTRODUÇÃO

Inverti os termos que me deram. O tema era “A capacitação ministerial e a missão da igreja”.  Primeiro discutirei a missão da igreja, e depois a capacitação ministerial. Porque a capacitação é para o ministério da igreja. A missão dada ao Senhor Jesus foi à igreja, não aos líderes ou  a instituições. Começo por aqui porque isto tem sido esquecido. Há líderes que pensam que a missão foi entregue a eles ou à sua instituição. Há muita gente realizando ministério solo, fazendo carreira individual, sem noção de grupo. Há pastores se colocando acima da denominação a que pertencem e que investiu neles, e se colocam também acima da igreja local, que também neles investiu.

A igreja local é a pedra de toque do reino de Deus. Todos estamos debaixo da sua autoridade. Os pastores não são executivos, donos ou acionistas majoritários das igrejas.  Cuidam delas, mas são membros delas, e subordinados a elas. A igreja é maior do que nós. E não apenas a igreja universal, a militante, mas a igreja local. Quando Paulo escreveu à igreja de Corinto ele disse que aqueles crentes eram o corpo de Cristo: “Ora, vós sois corpo de Cristo, e individualmente seus membros” (1Co 12.27). A igreja local não é uma faceta do corpo de Cristo, mas cada igreja local é corpo de Cristo. Por isso que organizar igreja é algo sério. E por isso, muito negócio chamado de igreja não é igreja. Porque igreja não é evento social, mas é teológico. É sempre um grupo de pessoas convertidas a Jesus Cristo, salvas pelo seu sangue, batizadas após crerem. Somos a igreja e ao mesmo tempo estamos subordinados à igreja.

É bom lembrar isso porque as instituições denominacionais muitas vezes se portaram de maneira imperial com as igrejas. Há um hiato muito grande entre as igrejas e as instituições denominacionais porque as coisas foram confundidas. A estrutura se viu como a denominação e via as igrejas como suas servas. Muito executivo tratou pastor de igreja local como subordinado. Houve muito executivo imponente e autoritário. Fui falar com um deles, uma vez, ele puxou a manga da camisa, olhou o relógio e disse que eu tinha dois minutos para dizer o que queria. Fui embora, até mesmo porque não sou pedinte. Quem faz o reino avançar é a igreja local. É nela que há conversões, é nela que se levantam ofertas. São elas que oram e pregam. O pastor de igreja local precisa ser respeitado, bem como a igreja local. Esta deve ser respeitada e amada. A instituição denominacional não é de nenhum executivo (termo muito impróprio; ele não é executivo, é servo), mas das igrejas locais. Precisamos devolver a denominação às igrejas e tirá-las de pessoas e grupos que se apossaram dela. Continue lendo A missão da igreja e a capacitação ministerial