Arquivo mensais:setembro 2009

A primavera, a frustração do Pererê e do Tininim e a lição do Geraldinho (ou do Alan?)

Isaltino Gomes Coelho Filho

Dia 22 de setembro, 2009. Termino minha leitura devocional e entro na Internet para ver as notícias. Sou informado que a primavera começa hoje, às 18h18min. Chega-me email de minha amiga Dra. Kátia Nichele, sobre a primavera. Respondo-a e caio nas minhas lucubrações (sempre quis dizer que lucubro! E às vezes sou lúgubre.).

Citei-lhe uma música que se cantava no Rio, na minha adolescência: “O Rio amanheceu cantando, Toda a cidade amanheceu em flor, Os namorados descem a rua em bando, Porque a primavera é a estação do amor”. Comento que o Rio não amanhece cantando, a cidade não amanhece em flor, namorados não andam em bando e qualquer estação é propícia ao amor. E aí mostro toda a minha erudição. Cito uma grande obra literária, o Pererê, do Ziraldo. Foi um gibi que saiu primeiro quando eu era adolescente, e depois quando moço. Tenho a coleção inteira do Pererê. Ziraldo não tem, e até quis comprar! Continue lendo A primavera, a frustração do Pererê e do Tininim e a lição do Geraldinho (ou do Alan?)

Drogas: um depoimento comovente e uma proposta inusitada

Pr. Isaltino Gomes Coelho Filho

Aos domingos, o jornal “Correio Braziliense” (com z mesmo, homenageando o primeiro jornal brasileiro, da época do Império) traz a “Revista do Correio”. A de 20 de setembro trouxe uma entrevista com Odacir Klein, que foi Ministro de Transportes do Governo Fernando Henrique. Ele passou 40 dos seus 66 anos bebendo. Ficou famoso, não pela atividade como Ministro, mas por um acidente automobilístico em que seu filho atropelou uma pessoa, matou-a e se evadiu. Foi condenado a pagar cestas básicas. Recordo-me do alarido na época. Odacir estava ao lado do filho, que dirigia. Mas, alcoolizado, sem condições de guiar. O filho, inexperiente, não foi muito hábil, provocou o acidente e fugiu. Odacir acha que ele fugiu para não expor o pai, bêbado, ao seu lado. Ninguém acreditaria que não fosse o ex-ministro.

Odacir é franco, fala abertamente do vício, e divulga seu livro “Conversando com os netos”, sobre o perigo da bebida. Expressa sua crença religiosa. É “católico praticante, mas sem fanatismo religioso”. Algumas pessoas religiosas têm medo de serem vistas como fanáticas ao expressarem sua fé. Sentem-se acuadas pela cultura secular? Ninguém receia ser chamado de fanático pelo seu time de futebol…

A entrevista é boa e inteligente. As repórteres Ana Dubeux e Cristine Gentil são do ramo, e o “Correio” é um bom jornal.  Elas dizem que há uma cultura ligando bebida ao prazer. Odacir lembra que “prazer e felicidade não são sinônimos”. Diz que tinha imenso prazer em beber, mas era profundamente infeliz. Gostei do que li e procurarei o livro.

No mesmo domingo chega-me a “Veja” de 23 de setembro. Nas páginas amarelas, o ex-presidente Fernando Henrique, com quem Klein trabalhou, defende a descriminalização das drogas. Comparei os dois textos. O douto sociólogo faz afirmações que me desnorteiam. Como perdemos a batalha contra as drogas, o melhor é liberá-las.  Não sei, Dr. FHC. Perdemos a batalha contra o crime e contra a violência. Devemos liberá-los? Diz ainda que as drogas não devem ser demonizadas. Usada por um ateu (um direito do douto ex-presidente), a expressão é curiosa. Deve ser santificada? Canonizada? Diz ainda que  a lei não deve ser dura com o usuário, porque na cadeia ele continuará fumando maconha. Meio confuso. Ser duro não significa mandar para a cadeia. E se ele fumar na cadeia, seus repentes de violência não afetarão esposa, filhos e outros que nada têm a ver com seu vício. E, se não me engano, na velha lei da oferta e procura, se um produto não tiver consumidor, não será vendido. O viciado não é um coitadinho, vítima da sociedade (como esta infeliz apanha!). É alguém que optou por aquilo. Se não houver quem compre não haverá quem venda.

Posso entender a posição de FHC, um homem lúcido, um pensador. Mas continuo desconfiado de que a indulgência não é a melhor política. Se o álcool quase destruiu a vida de Odacir, e segundo ele, levou um de seus filhos ao suicídio, será que maconha, cocaína, heroína e crack são menos destrutivos? Se o Dr. Fernando ouvisse o que um pastor ouve  de pais angustiados por verem seus filhos dominados por drogas! Se ouvisse os relatos que ouvimos de mulheres espancadas por maridos dominados por maconha, e ouvisse como, entre muitos, ouvi uma avó espancada pelo neto para financiar sua maconha, não teria a visão acadêmica do mundo das drogas.

Numa época em que o cerco ao cigarro se aperta, a defesa da liberação da maconha por pessoas como FHC e o curioso Minc me surpreendem. Alegar que Obama fumou maconha e chegou à presidência dos EUA não significa muito. Nem todos os usuários de drogas chegam à presidência de um país. Muitos se tornam assassinos e outros, assassinados. Não é a questão de legalização, mas a questão dos efeitos destrutivos das drogas.

Poderão me acusar de simplista, mas a questão tem uma dimensão que a pessoa sem visão espiritual não compreenderá nunca. O problema é o vazio, a falta de sentido para a vida, a sensação de angústia por não achar significado na existência. Não me convenço com discursos sociológicos. Volto a um ponto  tão óbvio que me surpreende que não seja visto, mas entendo que a pessoa sem Deus não o veja: há um imenso vazio emocional e espiritual nas pessoas. Vivemos num mundo de valores falsos, que exalta o ter coisas, a posse de bens e o prazer. Não se fala de valores morais (aliás, sempre que se toca no assunto quem o comenta é “falso moralista”), nem de responsabilidade. A busca de prazer acima de tudo e a concepção de que o sentido da vida está em curtições, baladas, drogas, etc., iludem as pessoas. Elas estão cegas pelo erro!

Foi Sócrates quem disse: “A vida que não é examinada não é digna de ser vivida”. As pessoas não se examinam, não pensam, têm medo do silêncio. O alto volume dos aparelhos de som, o fato de que as pessoas chegam em casa e ligam a tevê para não pensarem, a fuga através do lúdico (“Hoje é sexta-feira, traga mais cerveja”) e a idéia de que a verdadeira vida está na busca de prazer sensual dominam nossa sociedade. Assim vemos pessoas cheias de coisas e de bens, mas vazias de conteúdo. Com coisas, sem Deus, e sem nexo…

Pessoas vazias de Deus buscam o sentido da vida nos outros, no time de futebol, nas festas, nas drogas. É deprimente ver a cantoria desafinada de bêbados achando que estão abafando, e que estão sendo felizes. É tão citada que ficou sem impacto a frase de Agostinho, mas é profundamente real: “Tu nos criaste para ti, e a nossa alma só encontra descanso quando descansa em ti”. Quem tem uma experiência real de vida com Deus descobriu o sentido da vida. Não a perde nos vícios, tem procedimento construtivo e deixa marcas positivas de sua vida.

Odacir Klein usava droga lícita. E se destruía. FHC quer a legitimização das demais drogas. Talvez o raciocínio de que assim acabará a luta dos traficantes. Mas os efeitos destrutivos continuarão. Serão legitimadas, mas continuarão  mortais. E por isso, mesmo contra o pensamento do douto sociólogo, devem ser demonizadas, sim. Não cheiram a enxofre, mas fazem a pessoa viver num inferno.

As igrejas estão caladas neste pré-debate. Ou com medo de dizerem que seu discurso é “careta” ou porque estão ocupadas com outros assuntos. Mas precisamos dizer que a liberação das drogas trará mais desgraças para a sociedade. Temos vários ex-drogados em nossas igrejas. É hora de eles darem seus testemunhos. Pastores ouvem relatos de sofredores pela devastação das drogas. Não podem revelar o que ouvem, mas têm que dizer: liberar drogas não é a solução. O álcool é liberado, mostrado como sofisticado e festivo (quem bebe cerveja tem loiras aos montes do seu lado), mas é assassino.

E ao senhor ex-presidente, respeitosamente, peço-lhe que leia a entrevista do seu ex-ministro. E embora os intelectuais não primem sempre pela coerência, pense nisto: a licitude de uma droga não a torna menos letal.

A vida espiritual do casal

Preparado e apresentado pelo Pr. Isaltino Gomes Coelho Filho

aos casais da Igreja Batista do Natal, Natal, RN, 17.8.9

INTRODUÇÃO

Vida espiritual do casal. O que significa isto? Irem os dois juntos à igreja? Realizarem o culto doméstico? Fazerem uma oração rápida na hora da refeição? Nossa mente logo se direciona para atos de espiritualidade, mas gostaria de lhes pedir atenção para outra linha: atitudes que o casal deve tomar. Os atos isolados ou específicos devem refletir uma atitude íntima tomada pelo casal, e é desta atitude que quero lhes falar nesta ocasião. As atitudes definirão os atos e lhes darão valor. Alistarei apenas quatro, mas que nortearão nossa conversa.

1. PRIMEIRA ATITUDE: CONSCIÊNCIA DA AUTORIDADE DIVINA

A primeira atitude a tomar é o reconhecimento de ambos que estão sob a autoridade divina. Sei que “autoridade” é uma palavra maldita em nosso momento cultural. Associa-se, indevidamente, com opressão. Por causa disso, além da excessiva ênfase que nossa cultura dá no “eu”, ninguém quer se submeter e todos querem exercer autoridade.  Mas eu falo da autoridade divina. O casal crente precisa ter a consciência de que está debaixo da autoridade divina. Ou seja, há alguém acima dos dois. Há alguém que cuida, sim, mas esse alguém cuidador julga e estabelece critérios para os relacionamentos. Não é papai Noel, mas o Senhor Deus. Continue lendo A vida espiritual do casal

Não dá para tratar batata como alface

Pr. Isaltino Gomes Coelho Filho

Culinariamente não dá mesmo. A batata deve ser descascada e cozida ou frita. Alface não. Com sal e um bom azeite português por cima já está boa.

O título vem de uma observação de Peter Kreeft, catedrático de filosofia no Boston College e no King’s College, no livro “Jesus, o maior filósofo que já existiu”. No capítulo  “A antropologia de Jesus”, ele diz: “O liberalismo secular (termo enganoso, pois não é realmente libertador)… nega a realidade  do pecado pessoal e acha que o homem é um pé de alface, não uma batata. A alface apodrece de fora para dentro; a batata, de dentro para fora. Por essa razão, a solução dele é sempre uma solução ‘alface’: façamos isso ou aquilo, melhoremos o ambiente social, coloquemos algum dinheiro nas estruturas sociais ou condicionemos as pessoas com uma educação melhor. Eles são como os fariseus que limpam o exterior, mas ignoram a podridão interior (Mt 23.25,26). Alguém definiu o liberal como aquele que exige o direito de respirar ar puro para que possa proferir palavras  sujas” (p. 83). Continue lendo Não dá para tratar batata como alface

O Frio Deus do livro A Cabana

“The Shack” (A Cabana) tem ocupado o primeiro lugar na lista de bestsellers do New York Times, sendo uma narrativa de ficção, que ocupou durante nove meses o número sete em preferência no Amazon e o número seis no Barnes & Noble. Até o mês de janeiro deste ano, cinco milhões de cópias haviam sido vendidas. O livro está sendo traduzido em 30 línguas e um filme está sendo produzido. [N.T. – O povo evangélico emergente adora qualquer coisa que possa diluir o Evangelho verdadeiro, para continuar sentindo-se à vontade com os seus pecados de estimação].
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