Arquivo mensais:setembro 2011

A VOZ MÉDIA NA LÍNGUA GREGA (LEIA SEM MEDO)

Pr. Isaltino Gomes Coelho Filho

Pastoral do boletim da Igreja Batista Central de Macapá, 18.9.11

              Desde o tempo de seminário que gosto mais de Hebraico que de Grego, embora este seja mais fácil. Mas ultimamente dediquei-me um pouco mais ao Grego, para fazer algumas leituras.

Por isso, prestei atenção num trecho do livro O pastor contemplativo, de Eugene Petersen. Ele me é uma espécie de guru. Respeito-o muito e sempre aprendo dele. Neste livro, ele tem um capítulo sobre a voz média, no Grego. Não se preocupe! Não serei mais confuso que o habitual.

Em Português não há o correspondente à voz média. Há a voz ativa (cometo a ação) e a passiva (sofro a ação). Na voz média, “participo ativamente de uma ação  que outra pessoa inicia”.

Ele compara a vida cristã com a voz média grega. Diz ele: “Não manipulamos a Deus (voz ativa) nem somos manipulados por Deus (voz passiva). Somos envolvidos na ação e participamos de seus resultados, mas não a controlamos nem a definimos (voz média)”.

Deus não impõe a vida cristã sobre nós. Ele não nos empurra um pacote pela goela. Diz 1Timóteo 2.4: “Ele quer que todos sejam salvos e venham a conhecer a verdade”. Nem todos se salvam nem conhecem a verdade. Muitos se perdem: “A porta estreita e o caminho difícil levam para a vida, e poucos encontram esse caminho” (Mt 7.14). Ele não salva ninguém contra sua vontade. Ele não nos impõe sua vontade. Não somos fantoches com ações sem valor moral.

Nós não impomos lhe nossa vontade. Isso de ordenar, declarar e reivindicar não soa sadio. Jesus ensinou a pedirmos a vontade de Deus: “Que a tua vontade seja feita aqui na terra como é feita no céu!” (Mt 6.10).  Declarar e ordenar são arroubo infantil de quem desconsidera a Bíblia. É um baixo conceito de Deus. Jesus se submeteu à vontade do Pai: “Meu Pai, se é possível, afasta de mim este cálice de sofrimento! Porém que não seja feito o que eu quero, mas o que tu queres” (Mt 26.39).

Vida cristã é vida partilhada com Deus. Ele não nos obriga e não o forçamos. Na vivência diária  amadurecemos espiritualmente. Conhecemo-lo mais, buscamos agradá-lo, ele nos esclarece e mostra que muitos de nossos “desejos espirituais” são, na realidade, mundanos, e submetemos à sua vontade. É o que diz Romanos 12.2: “Não vivam como vivem as pessoas deste mundo, mas deixem que Deus os transforme por meio de uma completa mudança da mente de vocês. Assim vocês conhecerão a vontade de Deus, isto é, aquilo que é bom, perfeito e agradável a ele”.

Belo exemplo da voz média. Não somos agentes do processo. Nem sofremos abuso espiritual. Vivemos com ele, somos transformados por sua Palavra, e nos ajustamos espiritualmente.

Há gente na voz ativa: quer mandar em Deus. Confunde-o com energia cósmica. Há gente passiva. Espera que Deus faça tudo. Voz média é isto: nós e Deus  andamos juntos, e o que ele começa em nossa vida recebe nossa participação.

O PASTOR DO SÉCULO 21 – UMA REFLEXÃO NA ÁREA DA TEOLOGIA

Pr. Isaltino Gomes Coelho Filho

Preparada para a 1ª. Conferência da Ordem dos Pastores Batistas do Brasil, Subseção Mesquitense, Mesquita, RJ, 9.9.11

 

INTRODUÇÃO

Falar para pastores e líderes sobre temas do momento provoca-me dois tipos de percepção. Um é que alguns pensam que precisamos entender o nosso tempo para nos encaixarmos nele e também encaixarmos nele a nossa mensagem. Parece que este é o sentimento mais comum. Já me deixei dominar por ele, em tempos idos. Outra percepção é que devo me firmar mais nas raízes bíblicas e encaixar o tempo em que vivemos dentro dele. É este o sentimento que me conduz.

Tempos atrás, falei num congresso de pastores de outra denominação sobre o tema “Como deve ser o pastor do século 21?”. Pus as cartas na mesa na primeira sentença gramatical: “Exatamente como deveria ser o pastor do século 20, o do século 18, o do século 15 e o do século primeiro”. E coloco as cartas na mesa, logo no início, também aqui. Nosso foco não deve ser um ajuste do que pregamos aos novos tempos, mas sim como pregar a mensagem de sempre aos novos tempos. Quando focalizou tempos futuros, os do fim, Paulo não prognosticou nenhum conteúdo diferente a Timóteo, mas exortou-o à firmeza: “Na presença de Deus e de Cristo Jesus, que julgará todos os seres humanos, tanto os que estiverem vivos como os que estiverem mortos, eu ordeno a você, com toda a firmeza, o seguinte: Por causa da vinda de Cristo e do seu Reino, pregue a mensagem e insista em anunciá-la, seja no tempo certo ou não. Procure convencer, repreenda, anime e ensine com toda a paciência. Pois vai chegar o tempo em que as pessoas não vão dar atenção ao verdadeiro ensinamento, mas seguirão os seus próprios desejos. E arranjarão para si mesmas uma porção de mestres, que vão dizer a elas o que elas querem ouvir. Essas pessoas deixarão de ouvir a verdade para darem atenção às lendas. Mas você, seja moderado em todas as situações. Suporte o sofrimento, faça o trabalho de um pregador do evangelho e cumpra bem o seu dever de servo de Deus” (2Tm 4.1-4, NTLH). Continue lendo O PASTOR DO SÉCULO 21 – UMA REFLEXÃO NA ÁREA DA TEOLOGIA

UMA BOA REVISÃO FAZ BEM

Pr. Isaltino Gomes Coelho Filho

Pastoral do boletim da Igreja Batista Central de Macapá, 18.9.11

              Levei meu carro à revisão periódica. Nas duas primeiras trocou-se o óleo, mas agora havia algumas coisas por fazer, entre elas o fato de que o vidro arriava quando o carro caía numa das crateras de Buracópolis (ops, Macapá!). Coisas pequenas que, não resolvidas, ampliariam e afetariam outras partes. Uma revisão é boa para acertar o carro.

Fiz uma analogia com a necessidade de revisões espirituais. No início da vida cristã tudo são flores. Depois surgem pequenos defeitos em nossa vida. A conversão nos zerou. Mas continuamos a pecar e relaxamos na manutenção espiritual. Um problema suscita outro e assim vem o prejuízo espiritual. Muitos crentes estão espiritualmente esbodegados, como carro caindo aos pedaços, por falta de manutenção. Não se cuidam. Aliás, alguns cuidam mais de seus carros que de sua alma! O carro está em ordem, polido, alguns com aquele som de suburbano retardado (gente bocó!), mas a vida espiritual está um caos. Continue lendo UMA BOA REVISÃO FAZ BEM

TRANSPORTANDO OS FILHOS DE DEUS

Pr. Isaltino Gomes Coelho Filho

Pastoral do boletim da Igreja Batista Central de Macapá, 11.9.11

 

“Transportando os filhos de Deus” é o lema de uma empresa de ônibus do Amapá. Cruzo com eles, diariamente, no trânsito. Moro no Cabralzinho, fora do miolo da cidade, caminho de Santana, e eles fazem o trecho entre Macapá e Santana. Um dia desses, um deles vinha à toda pela rodovia. Em linguagem coloquial, vinha fungando no cangote de um Palio velhinho (como um que conhecemos). O pobre do Palio fazia de tudo para aumentar a velocidade e não conseguia. E o “Transportando os filhos de Deus” vinha quase grudado em sua placa traseira. Comentei com Meacir: “Ele quer transportar os filho de Deus para o céu”. Continue lendo TRANSPORTANDO OS FILHOS DE DEUS

COM QUE CAUSA SEU NOME FICARÁ ASSOCIADO?

Pr. Isaltino Gomes Coelho Filho

Pastoral do boletim da Igreja Batista Central de Macapá, 4 de setembro de 2011

      No interessante “Guia politicamente incorreto da história do Brasil”, Leandro Narloch demole alguns mitos arraigados na nossa história. Parte deles diz respeito aos primeiros habitantes do Brasil, os índios. Quem acha que o índio deve ficar à margem do progresso, in natura em um zoológico humano, deve lê-lo. Mas interessa-me agora a popularização do fumo.

      “Até os navegadores descobrirem a América, não havia cigarros na Europa nem o costume de tragar fumaça” (p. 60). Os europeus aprenderam a fumar com os índios. Fumar é “programa de índio”. Aliás, é algo sem nexo: engolir e expelir fumaça. E mal cheirosa!

      Em Portugal, o embaixador francês Jean Nicot se empolgou com a planta, e a enviou para sua rainha, Catarina de Médici. Esta adorava novidades e achou o tabaco sensacional. O cigarro caiu no gosto da corte francesa. Nicot acabou cedendo seu sobrenome para o nome científico da erva (Nicotiana tabacum). De Nicot vem “nicotina”. Seu nome se associou a uma erva maléfica, fedorenta e que cria dependência em um vício muito brega: fumar.

      A guilhotina deriva seu nome do médico Guilliotin, que a inventou para matar as pessoas por decapitação. A abreugrafia é assim chamada por causa do médico brasileiro Manoel Dias de Abreu, que inventou um método rápido e barato de tirar pequenas chapas radiográficas dos pulmões, para facilitar o diagnóstico da tuberculose.

      Alguns associam seus nomes a grandes causas. Outros, a pequenas causas. Outras, a causas nenhumas. Como D. Plácida, personagem de Machado de Assis, em “Memórias póstumas de Brás Cubas”: “…amanheceu morta; saiu da vidas às escondidas”. Há gente que passa toda a vida às escondidas. Outros, infelizmente, se dedicam a causas más. É a questão do que legaremos para os outros. Talvez não para o mundo. Mas o que legaremos a nossos filhos e netos? Em outras palavras: pelo que seremos lembrados? Que herança deixaremos? Como usamos a vida?

      Como cristãos, que igreja legaremos a nossos sucessores? Hebreus 11 alista os heróis da fé, em ordem cronológica. Hebreus 12 começa com “Portanto, também nós…”. Aquela lista de homens e mulheres continua conosco. Somos seus herdeiros, e outros serão nossos herdeiros. Nosso nome se ligará de maneira positiva a algum evento marcante na história do evangelho no mundo? Havia um pastor que fazia questão de ir a todos os exames de candidatos ao ministério para lhes armar “pegadinhas”. Ficou conhecido como “Chatonildo”.

      Seu nome se associará a alguma causa positiva, a causa alguma ou a causa negativa? Ligado ao seu amor por missões? Ligado ao seu amor pela sua igreja? Ao seu desejo de notoriedade? Ou, como D. Plácida, sequer será notado?

      Ligue seu nome a momentos e eventos positivos na história que os filho de Deus estão escrevendo neste mundo.