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A DOUTRINA DA JUSTIFICAÇÃO

INTRODUÇÃO

O ponto de partida é Romanos 8.29-30. “Pois aqueles que de antemão conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos. E aos que predestinou, também chamou; aos que chamou, também justificou; aos que justificou, também glorificou”. Eis a ordem no argumento paulino: o pré-conhecimento divino, a predestinação, a chamada, a justificação e a glorificação. Todos estes elementos são mostrados como atos de Deus. E a santificação? É também um ato de Deus, mas depende de nós, também. Na raiz de tudo: o querer de Deus. Ele é o justificador.

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A DOUTRINA DA PROPICIAÇÃO

INTRODUÇÃO

“Propiciação”. O que é isto, exatamente? O termo é enigmático, e muitos nunca ouviram falar dele, a não ser em algum versículo bíblico em que a palavra aparece. E talvez não tenham se apercebido dele. A melhor explicação para o termo é que nos diz que “propiciação significa a remoção da ira mediante a oferta de algum presente”. Era um ato presente na política internacional no Oriente antigo, quando um rei de alguma nação, para se manter seguro, enviava presente a outro rei, de uma nação mais forte. Era um gesto destinado a cultivar boas relações.

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A formação do Novo Testamento

Preparado pelo Pr. Isaltino Gomes Coelho Filho, para a Primeira Igreja Batista de Nova Odessa, SP

Comecemos com o texto de 2Pedro 1.20-21: “sabendo primeiramente isto: que nenhuma profecia da Escritura é de particular interpretação. Porque a profecia nunca foi produzida por vontade dos homens, mas os homens da parte de Deus falaram movidos pelo Espírito Santo”. Podemos observar que Pedro considerava “a profecia” (Antigo Testamento) como “Escritura” (grafês, palavra usada para “escrito”, mas aqui com o sentido de um escrito com autoridade).

Isto nos mostra que a Bíblia dos primeiros cristãos foi o Antigo Testamento. Vemos mais disto em Lucas 24.27, na atitude de Jesus: “E, começando por Moisés, e por todos os profetas, explicou-lhes o que dele se achava em todas as Escrituras”. E também em Lucas 24.44: “Depois lhe disse: São estas as palavras que vos falei, estando ainda convosco, que importava que se cumprisse tudo o que de mim estava escrito na Lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos”. Os judeus dividiam o Antigo Testamento em Lei, Profetas e Escritos. Jesus alude às três divisões, apenas citando “Salmos” em vez de “Escritos”. Talvez por ser o maior livro dos Escritos.

O ministério de Jesus sinalizou, desde cedo, que havia algo de diferente no mundo. O episódio da transfiguração elucida bem isto. Diante dos discípulos estavam Moisés e Elias, tipificando a Lei e os Profetas, mais Jesus, a nova revelação. Quando Pedro tenta nivelar os três, dispondo-se a fazer uma tenda para cada um, Deus Pai intervém e declara: “Este é o meu Filho amado, em que me comprazo; a ele ouvi” (Mt 17.5) e tira Moisés e Elias de cena. Os discípulos “erguendo os olhos, não viram a ninguém, senão a Jesus somente” (Mt 17.8). Também deduzimos isto de uma palavra de Jesus, em Lucas 16.16: “A lei e os profetas vigoraram até João; desde então é anunciado o evangelho do reino de Deus, e todo homem forceja por entrar nele”. A Lei e os Profetas, o Antigo Testamento, se esgotaram em João Batista, o último dos profetas na linhagem dos profetas de Israel. Com Jesus se inicia um tempo novo. Obviamente que uma nova revelação acabaria por surgir.

Jesus se valeu do Antigo Testamento, como judeu que era, mas tinha a noção de que trazia uma nova revelação. E sabia que não conseguiria completar toda ela, na comunicação aos discípulos. Lemos isto em João 16.12: “Ainda tenho muito que vos dizer; mas vós não o podeis suportar agora”. Já dissera coisas demais para que um grupo de pescadores, moldados no judaísmo, conseguissem entender tudo. Ainda havia mais coisas para dizer. Ele continua o discurso e anuncia que suas verdades ainda continuarão a ser ditas, agora pelo Espírito Santo, nos versículos 13-14: “Quando vier, porém, aquele, o Espírito da verdade, ele vos guiará a toda a verdade; porque não falará por si mesmo, mas dirá o que tiver ouvido, e vos anunciará as coisas vindouras. Ele me glorificará, porque receberá do que é meu, e vo-lo anunciará”. Esta palavra de Jesus é o endosso à revelação que viria desaguar no Novo Testamento.

A Igreja primitiva entendeu que a revelação do Antigo Testamento se esgotou com o ensino de Jesus. A citação de Jesus em Lucas 16.16 deve ter soado bem clara para eles. Havia uma parte nova em fazimento. Este ensino de Jesus é a palavra final de Deus, como lemos em Hebreus 1.1-2: “Havendo Deus antigamente falado muitas vezes, e de muitas maneiras, aos pais, pelos profetas, nestes últimos dias a nós nos falou pelo Filho…”. Jesus é a Palavra encarnada, como diz João, no prólogo do evangelho (“e a Palavra de fez carne” – Jo 1.14) e é, também, a Palavra final.

Ao mesmo tempo, a Igreja entendeu que tinha uma tarefa de reorganizar a revelação divina escrita. Como reverenciavam as Escrituras, isto deve ter sido uma tarefa muito bem pensada pelos discípulos. Em João 5.39, Jesus disse que os judeus examinavam as Escrituras e que elas testificavam dele: “Examinais as Escrituras, porque julgais ter nelas a vida eterna; e são elas que dão testemunho de mim”. A Igreja entendeu que o Antigo Testamento fora um testemunho sobre Jesus.  A questão era, de um ponto de vista de formulação, bem simples: reinterpretar as Escrituras. Mas era algo bastante complexo. Doutores da Lei haviam cristalizado o Antigo Testamento em séculos de estudo. Como eles fariam isto? Eles tinham que dar algumas explicações não apenas ao mundo, mas a si mesmos. Como entender o fenômeno Jesus? Como explicar o que eles tinham visto? Primeiramente, eles releram o Antigo Testamento, procurando por Jesus. Ele mesmo dissera que o Antigo Testamento testemunhara dele (Jo 5.39) e que Moisés testemunhara dele (“Pois se crêsseis em Moisés, creríeis em mim; porque de mim ele escreveu”- Jo 5.46). Nos sermões em Atos vemos que a Igreja foi buscar no Antigo Testamento, principalmente em Salmos, algumas pistas sobre Jesus. Salmos falam das esperanças e das expectativas dos judeus. Inclusive as esperanças pelo Messias. Os salmos messiânicos aludiam ao rei de Jerusalém como ungido de Deus. Foram aplicados a Jesus. A grande tarefa foi reinterpretar o Antigo Testamento. Ao mesmo tempo em que reinterpretava o Antigo Testamento, a Igreja produzia a sua literatura, que gerou o Novo Testamento. Eis nossa questão: como isto aconteceu? Como surgiram os escritos sobre Jesus, sobre a nova revelação, e como chegaram a ser tidos como autoritativos?

A TRADIÇÃO ORAL

Antes de chegarem à escrita, os relatos de Jesus circularam oralmente. Esta era uma prática entre os orientais e, óbvio, os judeus. Nas caravanas de viajantes pelo deserto, nas vilas, à noite, ao redor das fogueiras, no campo, as pessoas se ajuntavam para contar as histórias de seu povo. A grande massa da literatura dos rabinos foi desenvolvida entre os anos 100 a.C. e 600 de nossa era. Neste período de 600 anos, a transmissão foi oral. Foi o método de que o Espírito se valeu para formar o Antigo Testamento. Lemos em 2Timóteo 1.14: “guarda o bom depósito com o auxílio do Espírito Santo, que habita em nós”. “O bom depósito” é, no grego, ten kalen paratheken, literalmente, “o verdadeiro depósito”. Kalen era usado para designar algo verdadeiro em contraposição ao falso, principalmente moedas. Paulo está falando da tradição oral que Timóteo recebeu, que está nele, com o auxílio do Espírito Santo, e que ele deve diferenciar das tradições falsas. Assim se foi formando o Novo Testamento. Seu gérmen foi a tradição oral.

Citando Crabtree: “O primeiro evangelho representa a tradição apostólica circulada na Judéia, o Evangelho segundo Mateus. O segundo evangelho representa a tradição conhecida na Igreja de Roma, o Evangelho de Marcos, recebido do apóstolo Pedro. O terceiro evangelho, escrito por Lucas, o médico, representa a tradição circulada em Antioquia e em outras igrejas da Ásia Menor” [1]. Segundo esta teoria, a tradição foi, assim, preservada em três edições: a judaica, a romana e a grega. Isto é suficiente para mostrar que a formulação dos evangelhos foi algo muito bem preparado. Não é um trabalho irrelevante, pois que as três grandes correntes do pensamento mundial, na época, foram alcançadas pelo evangelho e puderam avaliá-lo, também.

A TRADIÇÃO ESCRITA

Houve documentação do ensinado por Jesus. Alguns estudiosos, por exemplo, afirmam que o sermão do Monte foi pronunciado em hebraico (menos provavelmente em aramaico) e que isto se vê na forma com foi traduzido para o grego [2]. Neste caso, teria havido anotações do longo discurso. O que temos seria uma síntese do que Jesus proferiu. Mas, isto é que nos interessa neste contexto: teria havido anotações escritas dos sermões proferidos por Jesus.

As semelhanças entre os sinóticos motivaram os estudiosos a defenderem a existência de um documento chamado Q (do alemão Quelle, “fonte”), que teria sido de comum acesso aos três evangelistas. Segundo alguns, esta fonte teria sido produzida em aramaico e os três evangelistas sinóticos usaram esta fonte, cada uma à sua maneira.  Pelo menos Lucas declara ter feito uma pesquisa acurada: “Visto que muitos têm empreendido fazer uma narração coordenada dos fatos que entre nós se realizaram, segundo no-los transmitiram os que desde o princípio foram testemunhas oculares e ministros da palavra,também a mim, depois de haver investido tudo cuidadosamente desde o começo, pareceu-me bem, ó excelentíssimo Teófilo, escrever-te uma narração em ordem” (Lc 1.1-3). Este documento teria sido comum aos sinóticos, mesmo Mateus e Marcos não afirmando nada em termos de pesquisa. Para Papias, Mateus teria escrito este documento Q, chamado, em grego, de Logia. Outros falam da interdependência dos evangelhos. Mateus e Lucas teriam se valido de Marcos, que seria uma espécie de evangelho padrão. Agostinho falou da “utilização recíproca”, uma variação desta idéia. Mateus teria sido o primeiro evangelho. Marcos teria resumido Mateus e Lucas teria se valido dos dois.

Parece-me que é possível combinar as posições da tradição oral com uma fonte escrita. Elas não são excludentes, mas combinam-se entre si. Parece-me, ainda, que Marcos teria sido o evangelho padrão. Algumas razões para isto: (1) Mateus e Lucas concordam entre si quando concordam com Marcos; (2) quando Mateus e Marcos discordam entre si, um dos dois concorda com Marcos. Esta discordância não é de conteúdo, mas de detalhes; (3) há mais traços de Marcos em Mateus e Lucas do que os outros dois no outro e em Marcos.  Lembremos que Marcos teve como principal fonte o apóstolo Pedro, um dos que privavam da intimidade de Jesus. Marcos recebeu informações de uma testemunha ocular, o que o credencia para ser uma fonte segura. Lembremos mais que Mateus fora cobrador de impostos e que foi na coletoria que Jesus o encontrou. Era um homem de fazer anotações escritas.

QUAIS OS CRITÉRIOS PARA ESCOLHER OS LIVROS DO NOVO TESTAMENTO?

De vez em quando ouvimos falar do evangelho de Pedro, do evangelho de Tomé, e de outros livros. Por que temos estes 27 livros do Novo Testamento e não os demais? Pelo menos seis critérios foram empregados pela comunidade primitiva.

(1)   O primeiro foi a circulação universal. Alguns livros foram produzidos, mas nunca tiveram aceitação em todas as igrejas locais. Foram de aceitação restrita. Não houve consenso quanto aa sua autoridade. Os livros que constam do nosso Novo Testamento tiveram aceitação nas igrejas.

(2)   O segundo foi a autoria apostólica ou dos discípulos dos apóstolos. Assim é que temos as cartas de Paulo, Pedro e João. Tiago e Judas, se são, como penso, os irmãos de Jesus, logo se converteram e se integram à Igreja. Marcos e Lucas foram discípulos dos apóstolos. Isto preservava a autoridade doutrinária dos livros. Por isto, livros como as epístolas de Clemente Romano e o Didaquê foram recusados.

(3)   O terceiro é um desdobramento: que os livros seguissem a doutrina dos apóstolos. Como Marcos, Lucas e, possivelmente Hebreus, se seu autor é Apolo ou Barnabé. Isto garantia a firmeza doutrinária.

(4)   O quarto foi a rejeição de escritos fabulosos ou ridículos. Assim foram rejeitados alguns evangelhos apócrifos, como o de Tomé, os evangelhos de André, os Atos de Paulo e o Apocalipse de Pedro. Além de não terem sido escritos por estes homens, seu conteúdo era duvidoso.

(5)   O quinto foi a rejeição de escritos que propagavam heresias. A Igreja tinha um poderoso vínculo doutrinário, que era a pessoa de Jesus. Os apóstolos eram a fonte de avaliação e de avalização dos escritos. Eles podiam detectar se algo era condizente com a integridade do ensino de Jesus.

(6)   O sexto foi a utilização universal por parte das igrejas. É uma ampliação da primeira, a aceitação universal. Em Colossenses 4.16, Paulo recomenda que a epístola seja enviada à Igreja de Laodicéia e a que fora enviada à Igreja de Laodicéia fosse lida em Colossos. Havia circulação e aceitação.

Estes critérios mostram que a Igreja nâo foi tonta nem estabanada na formação do cânon do Novo Testamento. Articulistas seculares, que não têm noção do que foi a formação do Novo Testamento, vez por outra produzem artigos banais, tentando desprestigiar o cânon e falando de livros rejeitados, como se a Igreja tivesse agido de má fé. Ela agiu com extremo bom senso. E acima de sua ação, lembremos que o Espírito Santo, dado à Igreja, coordenou este trabalho. Ele é o autor último das Escrituras, como lemos em 2Pedro 1.20-21: “sabendo primeiramente isto: que nenhuma profecia da Escritura é de particular interpretação. Porque a profecia nunca foi produzida por vontade dos homens, mas os homens da parte de Deus falaram movidos pelo Espírito Santo”. Isto se aplica, também, ao Novo Testamento.

Podemos com isto dizer que o Novo Testamento não é um documento irrefletido, produzido de uma hora para outra. Ele foi maturado por mais de meio século e foi produzido por quem sabia o que estava fazendo. No dizer de Davies: “Os documentos do Novo Testamento foram todos eles escritos por cristãos. Isto significa que eles são, essencialmente, produtos da comunidade cristã do primeiro século. O Novo Testamento foi escrito pela Igreja, para a Igreja e a partir da visão da Igreja. Neste sentido, é um documento eclesiástico. Ele traz as marcas das necessidades e questões da Igreja em cada página” [3]. Ela sabia o que estava fazendo.

CONCLUSÃO

A finalidade deste estudo, que bem é bem sintético, sem pretensão de ser uma tese ou um artigo teológico, é mostrar que o Novo Testamento merece confiança. Não foi uma obra produzida sem preparo. Se 1Tessalonicenses foi escrito no ano 46, sendo o primeiro livro, como pensam alguns, e o Apocalipse foi escrito no ano 90, há 44 anos de produção literária. E se temos a tradição oral, antes da produção dos evangelhos houve uma fermentação das idéias e história, tempo suficiente para serem confirmados ou corrigidos pelos apóstolos. É revelador que o Apocalipse de João é o último livro, cronologicamente falando, do Novo Testamento. Após a morte de João, nenhum livro foi escrito e tido como digno de figurar no cânon da Igreja. Claro, não havia mais um apóstolo para autenticar ou confirmar as idéias. Lembremos de 1João 1.1-3, onde João se põe como testemunha ocular do fenômeno Jesus: “O que era desde o princípio, o que ouvimos, o que vimos com os nossos olhos, o que contemplamos e as nossas mãos apalparam, a respeito do Verbo da vida (pois a vida foi manifestada, e nós a temos visto, e dela testificamos, e vos anunciamos a vida eterna, que estava com o Pai, e a nós foi manifestada); sim, o que vimos e ouvimos, isso vos anunciamos, para que vós também tenhais comunhão conosco; e a nossa comunhão é com o Pai, e com seu Filho Jesus Cristo”.

Os escritos do Novo Testamento merecem confiança, mas devemos avançar mais um pouco. Merecem nosso respeito. Merecem nosso amor. Merecem que nos aproximemos deles com interesse e com fome. Eles são, e devem ser vistos assim, como Palavra de Deus para nós. Se não os virmos assim, perderemos muito e todo conhecimento que viermos a ter sobre o Novo Testamento terá sido inútil. Que amemos o Novo Testamento e nos abeberemos em seu ensino.


[1] David Smith, The Days os His Flesh, p. XV

[2] Chouraqui, A Bíblia – Matyah, p.  82.

[3] Davies. Invitation to The New Testament, p. 39.

A formação dos quatro evangelhos

Preparado pelo Pr. Isaltino Gomes Coelho Filho, para a Primeira Igreja Batista de Nova Odessa, SP

Os evangelhos inauguram um novo tipo de literatura, na Bíblia. Eles não são livros históricos, como Samuel, Reis e Crônicas, no Antigo Testamento. Nem poesia como Salmos. Nem a literatura de sabedoria, como Eclesiastes e Provérbios. Tampouco são livros como os proféticos. Nem literatura apocalíptica, como Daniel e trechos de Ezequiel, embora alguns ditos de Jesus sejam apocalípticos. Inauguram um estilo novo. Mesclam, na sua composição, história, narrativas, discursos e teologia. Seu sentido literal é “boas novas”, mas acima do sentido literal, vejamos o fenômeno literário. É uma contribuição do cristianismo à historiografia religiosa mundial. Já havia algo semelhante na historiografia filosófica, como comentamos a seguir.

Os evangelhos inauguram um novo estilo literário na Bíblia, mas não na história. O uso do diálogo, como os evangelhos nos mostram, aparece muito nos escritos dos grandes pensadores gregos, principalmente em Sócrates, cerca de 450 anos antes de Cristo. A diferença entre os evangelhos e os escritos filosóficos, óbvio, é a pretensão dos evangelhos. Eles se propõem a apresentar a vida de um personagem único, singular, Jesus de Nazaré, mostrando-o como filho de Deus e como o próprio Deus.  Eles se propõem a dar resposta não a questões filosóficas, mas à questão maior do homem, a eternidade. Os filósofos apontavam para algum aspecto da verdade fora deles. Os evangelhos apontam a Verdade encarnada em um homem.  Só isto é suficiente para mostrar sua imensa superioridade sobre qualquer escrito antes deles. E depois, também. Por isso, vamos dar uma mirada nos quatro evangelhos. Vamos ver o que se propõem a ser, e uma síntese do seu conteúdo.

DOCUMENTOS DE FÉ

Salta aos olhos que os evangelhos não pretendem ser história, no sentido de objetividade fria e imparcial. Não são crônicas históricas nem atas de reuniões, sem vida. São documentos de fé. Isto não quer dizer que não são históricos. Eles são. Não narram ficção. Narram os atos de um homem histórico, que viveu num momento histórico, num lugar histórico, e fundou um movimento histórico chamado Igreja. São históricos. Vejamos esta palavra de Lucas: “Visto que muitos têm empreendido fazer uma narração coordenada dos fatos que entre nós se realizaram, segundo no-los transmitiram os que desde o princípio foram testemunhas oculares e ministros da palavra, também a mim, depois de haver investido tudo cuidadosamente desde o começo, pareceu-me bem, ó excelentíssimo Teófilo, escrever-te uma narração em ordem” (Lc 1.1-3). Os evangelhos não narram alguma invencionice literária, mas falam de coisas que aconteceram. São documentos de fé,  não de uma fé conceitual, mas de uma fé enraizada na história, confirmada por fatos.

Vejamos também esta palavra de Paulo: “Porque o rei, diante de quem falo com liberdade, sabe destas coisas, pois não creio que nada disto lhe é oculto; porque isto não se fez em qualquer canto” (At 26.26). O relato do Novo Testamento, em geral, e dos evangelhos, mais restritamente, não são insignificantes. Aconteceram e não foi em qualquer canto. Tornaram-se notórios, os eventos, na época. O mundo que vivenciou os eventos narrados nos evangelhos e em Atos não pode negá-los. Hoje se tenta negá-los, mas o mundo da época teve que silenciar, espantado.

São históricos, mas são documentos de fé porque procuram levar a pessoa a ter fé. É o que João diz, no encerramento do seu evangelho, em 20.30-31 (veremos, depois, que o capítulo 21 é um apêndice que João acrescentou ao que tinha escrito): “Jesus, na verdade, operou na presença de seus discípulos ainda muitos outros sinais que não estão escritos neste livro; estes, porém, estão escritos para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais vida em seu nome”.

Definamos, então, isto: os evangelhos são livros que narram eventos que aconteceram, e procuram despertar a fé na pessoa de Cristo. Perderá muito do seu valor quem os ler buscando curiosidades ou pensando estar analisando uma obra comum. Partimos deste pressuposto: são Palavra de Deus, inspirada (soprada por Deus) e têm um propósito para nossa vida. Podemos entender as palavras, mas se não partirmos deste ponto de vista, que eles vêem do Espírito Santo de Deus, perderemos a bênção que eles trazem para nós, a vida em Cristo.

POR QUE QUATRO?

Há um profundo simbolismo no número quatro, na cultura hebraica.  Quatro são os pontos cardeais, quatro são as direções do vento, quatro são as estações do ano, e quatro eram as constelações da mitologia babilônica (Touro, Leão, Escorpião e Aquário), que marcou muito a cultura oriental antiga. Estas quatro constelações sustentavam o universo nos seus quatro cantos, na cultura da época. Por isso, o número quatro designava a totalidade da terra e do universo. Quatro evangelhos foram escolhidos de maneira a mostrar-se que a totalidade das informações sobre Jesus estão contidas neles. Uma outra maneira, mais simples, de ver isto é apenas dizer que o fato de serem quatro é apenas acidental.

Dirá alguém que já ouviu falar do evangelho de Tomé, do evangelho de Pedro, etc. De vez em quando, na falta de assunto, algum desocupado e ignorante da Bíblia declara que a Igreja adulterou os escritos bíblicos ou que escolheu apenas alguns que servissem ao seu propósito.  Só para não ficarem dúvidas, digo que o chamado Evangelho de Tomé foi composto no ano 150, quando Tomé já havia morrido há muito tempo. E o de Pedro, em 160. Um chamado Evangelho de Nicodemos foi escrito entre os anos 200 e 500. São obras de ficção, chamadas de pseudepigrafia. Os evangelhos de Mateus, Marcos, Lucas e João foram aceitos pela Igreja primitiva, pela comunidade cristã que vivenciou a formação histórica do cristianismo, e são documentos que puderam ser analisados por testemunhas. Isso basta.

Ditas estas coisas, vejamos um pouco da mensagem de cada um deles. Não entraremos em detalhes de datas de produção nem de questões técnicas ou canônicas. Afinal, isto não é curso de Canôn das Escrituras. É uma abordagem de visão teológica, mas continuando uma perspectiva devocional. Em outras palavras, o que isto tem para nós de conteúdo prático.

A MENSAGEM DE MATEUS

Mateus escreveu para judeus. Sua tese é que as profecias do Antigo Testamento se cumpriram na pessoa de Jesus. Sua primeira declaração, em 1.1, esclarece isto muito bem: “Livro da genealogia de Jesus Cristo, filho de Davi.”.  Jesus é o descendente de Davi esperado. Desde o cativeiro que os judeus, arrasados, esperavam uma reconstrução nacional. Esperavam um homem como Davi, porque no reinado de Davi Israel se tornou a maior potência do Oriente.  Eis o que lemos em Ezequiel 34.23-24: “E suscitarei sobre elas um só pastor para as apascentar, o meu servo Davi. Ele as apascentará, e lhes servirá de pastor. E eu, o Senhor, serei o seu Deus, e o meu servo Davi será príncipe no meio delas; eu, o Senhor, o disse”. Davi se tornou o nome símbolo para o Messias. Esta é a linha de Mateus. Ele fará várias comparações entre Jesus e Israel e, por fim, mostrará que o tempo de Israel passou, e a Igreja o substitui: “Portanto eu vos digo que vos será tirado o reino de Deus, e será dado a um povo que dê os seus frutos” (21.43).

Mateus parece ter mais conteúdo, em termos de massa de informação. É um evangelho que dá uma visão completa da obra de Jesus. É bem estruturado e seu autor sabia comunicar e o fez seguindo um plano de ação. É um evangelho bem preparado. Sua anotação do Sermão do Monte legou ao mundo a transcrição da mais fantástico e famoso sermão já pregado. É ele quem traz um discurso apocalíptico de Jesus, no final. São dois limites bem definidos. No início, o sermão do monte, as bases éticas do reino. No final, o sermão escatológico, a consumação do reino. Ao longo do escrito, o evangelho do reino. Início, meio e fim, numa obra bem elaborada.

A MENSAGEM DE MARCOS

Marcos mostra o ministério ativo de Jesus. No seu escrito, o evangelista sempre o mostra em atividade. Jesus é um homem cheio de energia, indo de um lugar para o outro, sempre pregando, ensinando e curando. Ele organizou o material de maneira a mostrar como os eventos vão se sucedendo até a tragédia final. Na realidade, o evangelho de Marcos termina em 16.8. O trecho de 16.9-20 foi acrescido por alguém, pois o vocabulário é, claramente, diferente. O trecho é chamado de “O grande final”. Um manuscrito atribui o texto de 16.9-20 a um “presbítero Ariston”.  Por motivos que nos escapam, a Igreja aceitou o acréscimo. E precisamos acreditar que o Espírito estava trabalhando na formação do cânon, sendo, então, esta parte acrescida também canônica. Mas Marcos quis concluir sua obra com esta mensagem: a sepultura está vazia e os discípulos devem ir para a Galiléia, onde tudo começou. Eles continuarão o que Jesus começou. A Igreja continua a tarefa de Jesus, é o que ele mostra. Uma estrutura muito bem construída, como se vê.

Mesmo sendo o mais sintético dos quatro, Marcos é respeitado como um documento sério. Pedro freqüentava a casa de Marcos, quando este, provavelmente, era um rapazinho: “Depois de assim refletir foi à casa de Maria, mãe de João, que tem por sobrenome Marcos, onde muitas pessoas estavam reunidas e oravam” (At 12.12). Tomou-o como discípulo. Ele viajou com os discípulos e foi, inclusive, o pivô de uma dissensão entre Paulo e Barnabé, tendo sido companheiro de Barnabé, depois que Paulo o recusou: “Decorridos alguns dias, disse Paulo a Barnabé: Tornemos a visitar os irmãos por todas as cidades em que temos anunciado a palavra do Senhor, para ver como vão. Ora, Barnabé queria que levassem também a João, chamado Marcos. Mas a Paulo não parecia razoável que tomassem consigo aquele que desde a Panfília se tinha apartado deles e não os tinha acompanhado no trabalho. E houve entre eles tal desavença que se separaram um do outro, e Barnabé, levando consigo a Marcos, navegou para Chipre” (At 15.36-39). Deve ter se recuperado, pois no fim da vida Paulo reconheceu como útil: “Só Lucas está comigo. Toma a Marcos e traze-o contigo, porque me é muito útil para o ministério” (2Tm 4.11). Estas atividades com Paulo e Barnabé e o bom testemunho de Paulo sobre ele o credenciaram como uma pessoa digna de confiança no seio da comunidade cristã.

A MENSAGEM DE LUCAS

Lucas escreveu para orientar um tal de Teófilo, que, sem dúvida, é uma pessoa. O “excelentíssimo”, forma de tratamento, significa, segundo alguns, que era um oficial do exército romano.  Mas é um emblema, também. Significa “amigo de Deus’. Os que querem ser amigos de Deus devem prestar atenção no que ele diz. Sua tese central está em 19.10: “O Filho do Homem veio buscar e salvar o que se havia perdido”. Jesus é o homem perfeito, o restaurador da humanidade, o primogênito da nova raça de Deus. Talvez Lucas,  companheiro de Paulo, tivesse em mente o texto de 2Coríntios 5.17: “Se  alguém está em Cristo, nova criação é”. Em Jesus Cristo, Deus cria um homem e um mundo novos. A influência de Paulo é muito grande em Lucas. Como vemos nos capítulos finais de Atos, em que o pronome usado na narrativa é “nós”, ele viveu algumas experiências com Paulo. Permaneceu com ele até o fim, como lemos em 2Timóteo 4.11. Paulo o amava em Cristo: “Saúda-vos Lucas, o médico amado, e Demas” (Cl 4.14). Era respeitado na Igreja, como irmão de Silas. É muito provável que “o irmão cujo louvor no evangelho está espalhado por todas as igrejas” (2Co 8.18) seja ele. Lucas dispunha de muita credibilidade na Igreja.

Mas Lucas não fica apenas na apresentação de Jesus como o homem perfeito. Ele, Jesus, é mostrado como sendo Deus, também. As palavras de Gabriel mostram isso: “Este será grande e será chamado filho do Altíssimo; o Senhor Deus lhe dará o trono de Davi seu pai; e reinará eternamente sobre a casa de Jacó, e o seu reino não terá fim. Então Maria perguntou ao anjo: Como se fará isso, uma vez que não conheço varão? Respondeu-lhe o anjo: Virá sobre ti o Espírito Santo, e o poder do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra; por isso o que há de nascer será chamado santo, Filho de Deus”(1.32-35).

O evangelho de Lucas mostra a perfeita humanidade e a perfeita humanidade de Jesus. É dele o documento em que se vê mais de perto a face humana, pessoal, de Jesus. Ele não perde a vista sua divindade, mas retrata-o mais humanamente que os demais. É, também, o mais literário dos quatro evangelhos.

A MENSAGEM DE JOÃO

Este é o mais fascinante dos evangelistas. Seu evangelho difere dos demais porque ele construiu a vida de Jesus ao redor de discursos, e não de eventos. Sua tese é simples: “Jesus é o Cristo, o Filho de Deus”.  Jesus é o Messias das profecias do Antigo Testamento. O tempo do Antigo Testamento, de Moisés e do judaísmo passou. “A lei foi dada por meio de Moisés; a graça e a verdade vieram por Jesus Cristo” (1.17). Moisés foi um instrumento e Jesus é o ponto final.  O trecho de 6.31-35 é bem expressivo disto: “Nossos pais comeram o maná no deserto, como está escrito: Do céu deu-lhes pão a comer. Respondeu-lhes Jesus: Em verdade, em verdade vos digo: Não foi Moisés que vos deu o pão do céu; mas meu Pai vos dá o verdadeiro pão do céu. Porque o pão de Deus é aquele que desce do céu e dá vida ao mundo. Disseram-lhe, pois: Senhor, dá-nos sempre desse pão. Declarou-lhes Jesus. Eu sou o pão da vida; aquele que vem a mim, de modo algum terá fome, e quem crê em mim jamais terá sede”.

João é um artista das palavras. Em toda a Bíblia, poucos souberam utilizá-las tão bem como ele. O retrato de Jesus por ele pintado tem prendido os corações e as mentes das pessoas através de séculos. Não é tão erudito como Lucas, mas é um poeta e construtor de imagens. O texto de João 3.16, por exemplo, é a passagem mais conhecida de todo o Novo Testamento. Seu relato final, mostrando Jesus e os discípulos na praia, é uma obra-prima da narrativa. A beleza e a pungência do escrito impressionam. Ali se vê como Jesus reconstrói sua comunidade, já dispersa, e recupera a autoconfiança de homens abalados pelo fracasso. É um evangelho de carinho, cheio da ternura do Salvador.

CONCLUSÃO

Mateus, Marcos, Lucas e João, os quatro evangelistas, legaram ao mundo a história mais fantástica que os ouvidos humanos já ouviram. Um dia, Deus veio a este mundo como homem. Aqui viveu, sofreu, ensinou, morreu e ressuscitou. E deixou uma comunidade, a Igreja, que deve dizer ao mundo o que ele ensinou. Estudar os evangelhos é beber na fonte mais cristalina. Por isto, aprofundemo-nos no estudo sobre a vida e os ensinos de Jesus de Nazaré, o Deus feito homem. Sem dúvida, seremos grandemente beneficiados.