Arquivo mensais:novembro 2010

O PERIGO DE UM MAU INSTRUTOR…

Pr. Isaltino Gomes Coelho Filho

Pastoral do boletim da IBC de Macapá, 28.11.10

Manhã cedo, vinha para a igreja, com Meacir. A Av. Pe. Júlio é nosso caminho (cá pra nós: a Lagoa dos Índios é linda!). Em frente ao Santa Lúcia há uma faixa de pedestres e um deles a atravessava. O Ford Ka branco parou em cima da faixa. Já vinha irregularmente, sobre a divisória entre duas pistas de rolamento. O motorista falava ao celular. O pior: era um veículo de auto-escola. Não é à toa que o trânsito é como é. Os instrutores não praticam o que ensinam. Assim, há alunos que aprendem macetes para conseguir a habilitação, mas que não sabem dirigir. Apenas fazem o carro andar. Os instrutores são cegos guiando cegos. Bem disse Jesus: “… se um cego guiar outro cego, ambos cairão no barranco” (Mt 15.14).

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O PROFETA JEREMIAS

Um estudo preparado pelo Pr. Isaltino Gomes Coelho Filho

INTRODUÇÃO

Jeremias foi um homem incompreendido em sua época. Foi também um homem solitário. E cheio de adversários. Poucos homens foram tão hostilizados como ele. Não há profeta que tenha padecido mais que ele, e no restante da Bíblia, quem pode se ombrear é Paulo, em termos de perseguição. É chamado de “o profeta chorão”, um epíteto que mostra um conhecimento bastante superficial sobre sua vida. Na realidade, chamá-lo de “chorão” é uma injustiça. É um gigante entre os profetas e de chorão não tem nada. Num sermão no texto de Jeremias 2.13, o saudoso Pr. José dos Reis Pereira disse que Jeremias era um gigante espiritual, numa geração de pigmeus. Um bom termo: um gigante, não um chorão.

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2ª CARTA DE PEDRO

Preparado pelo Pr. Isaltino Gomes Coelho Filho para núcleos de estudos bíblicos

Se a primeira carta de Pedro não é muito lida, pregada e estudada em nosso meio, com a segunda a situação é pior. É quase que ignorada em nossos púlpitos. Para piorar, alguns comentários bíblicos são bem mais enfáticos com problemas críticos que com seu conteúdo. O comentário da Almeida Século 21, na sua maneira de argumentar sobre as dificuldades do livro ter sido aceito no cânon do Novo Testamento, por exemplo, é tão desalentador que tira a vontade de estudar a carta. A justificativa para a relutância da aceitação no cânon é tão tênue que nada resolve. Chega a ser surpreendente que uma edição da Bíblia, através de um comentário, deixe mais dúvidas que certeza sobre o valor da Bíblia. Coitada da segunda epistola de Pedro! Ignorada pelos cristãos, desprezada pelos críticos e quase que tolerada pelos comentaristas de uma edição bíblica.

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A PRIMEIRA CARTA DE PEDRO

Preparado pelo Pr. Isaltino Gomes Coelho Filho para grupos de estudo bíblico

As duas cartas de Pedro não fazem parte dos livros prediletos dos cristãos, sendo preteridas pelas epístolas paulinas. Elas fazem parte das epístolas católicas, que recebem este nome porque não foram destinadas a igrejas em particular (como as de Paulo), mas eram universais (este é o sentido da palavra “católico”). Nunca houve dúvida alguma na história da igreja de que seu autor fosse o apóstolo Pedro. Ele não possuía grande instrução acadêmica (At.4.13), mas suas cartas são bem escritas. Ele não freqüentou as escolas gregas, como provavelmente o autor de Hebreus freqüentou, nem teve instrução teologia, filosófica e jurídica, como Paulo, que era um doutor da lei. Mas não se deve presumir que fosse analfabeto ou ignorante. Não conhecia a filosofia grega ou o direito romano, mas como o grego era língua conhecida por todo o mundo, escreveu em grego. Também falava o aramaico, que era sua língua natal, e talvez o hebraico, que era a língua dos doutores da lei (como no passado, os padres falavam o latim). Não era um doutor da lei, mas ouvia o hebraico, como freqüentador da sinagoga, onde a lei era ensinada.

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A COMPOSIÇÃO DO NOVO TESTAMENTO E O EVANGELHO DE MATEUS

Preparado pelo Pr. Isaltino Gomes Coelho Filho para grupos de estudos bíblicos

COMPOSIÇÃO

O Novo Testamento se compõe de 27 livros, assim divididos:

4 evangelhos (Mateus, Marcos e Lucas  – chamados de sinóticos – e João)

1 livro histórico (Atos)

13 cartas de Paulo (Romanos, 1 e 2Coríntios, Gálatas, Efésios, Filipenses e Colossenses, 1 e 2Tessalonicenses, 1 e 2Timóteo, Tito – estas três chamadas de “pastorais”-  e Filemon)

1 livro de autoria desconhecida (Hebreus)

5 cartas gerais (Tiago, 1 e 2Pedro, 1, 2 e 3João e Judas)

1 apocalipse (Apocalipse ou Revelação)

Presume-se que 1Tessalonicenses tenha sido o primeiro documento escrito, no ano 46 de nossa era. O Apocalipse, o último, cerca do ano 95. Talvez um pouco antes. Pode haver pequenas divergências quanto às datas e à ordem de produção dos livros, mas em geral é isto que se afirma. Todos foram escritos em grego comum, que era a língua mais falada no mundo, na época. Um crítico da Nova Tradução da Linguagem de Hoje disse que esta tradução era a “vulgarização” do texto bíblico. Pois bem, ele acertou. O texto bíblico foi escrito em grego vulgar, não no grego clássico.

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AFINAL, O QUE É UM EVANGÉLICO?

Isaltino Gomes Coelho Filho

Pastoral do boletim da Igreja Batista Central de Macapá, 21.11.10

Convidei alguém, em Macapá, a vir à igreja. Ele me disse que era evangélico. Perguntei qual sua igreja, pois não pesco em aquário. A resposta foi: “Renovada. Sou avivado!”. Perguntei onde ficava o templo de sua igreja. Não sabia. Morava em Macapá há dois anos e desconhecia o grupo do qual dizia ser. Afastara-se da igreja, deixara a esposa, vivia maritalmente, e cheirava a fumo e álcool. Mas era “avivado”.

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AOS POUQUINHOS…

“Abrão ficou na terra de Canaã, e Ló foi morar nas cidades do vale. Ló foi acampando até chegar a Sodoma, onde vivia uma gente má, que cometia pecados horríveis contra o Deus Eterno” (Gênesis 13.12)

Pr. Isaltino Gomes Coelho Filho

Abraão saiu de Ur para a terra que Iahweh lhe daria levando consigo seu sobrinho Ló. Mais tarde os dois se separaram, tendo Ló escolhido a terra que lhe pareceu melhor e mais produtiva. Abraão deu-lhe o direito de escolha, como homem educado e espiritual que era. Ló se valeu desta opção, mas deveria ter recusado, por um princípio cultural muito forte da época: Abraão era seu tio e era, presume-se, mais velho. Naquela cultura, um parente com ascendência e uma pessoa mais idosa tinham a prioridade. Por mais gentil que Abraão fosse, cabia a Ló negar a oferta. Mas parece que ele amava muito mais aos bens que a educação recebida e aos valores de sua época. Parece um homem que só tem olhos para seu bem-estar pessoal. Enquanto a destruição de Sodoma era traçada, ele se preocupava com uma cidadezinha para morar, e não com as vidas das pessoas. Nem uma vez sequer orou pelos moradores da cidade, mas preocupou-se com sua vida material.

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O CONSTRUTOR DE ALTARES

“Ali o Deus Eterno apareceu a Abrão e disse: – Eu vou dar esta terra aos seus descendentes. Naquele lugar Abrão construiu um altar ao Deus Eterno, pois ali o Eterno havia aparecido a ele” (Gênesis 12.7)

Pr. Isaltino Gomes Coelho Filho

Este é o primeiro dos muitos altares que Abraão levantou para Iahweh, o Deus Eterno. Tornou-se sua prática de vida. Chegando em um lugar, primeiro ele levantava um altar de pedras para Deus, e depois armava suas tendas. Para Deus, uma construção de pedras, algo duradouro. Para si, suas tendas, algo perecível. Muita gente hoje quer ter as riquezas de Abraão, o que julga ser a maior bênção da vida cristã, mas primeiro constrói casas de pedra para si e depois tendas perecíveis para Deus. Para si, o melhor. Para Deus, qualquer coisa. Faz o oposto de Abraão.

Este primeiro altar é levantado, como muitos outros, num ambiente pagão. “Os cananeus viviam naquela região” (v. 7). Ele passava por onde os pagãos estavam, mas nunca se ajuntava moralmente a eles. Além disto, e isto é bastante significativo, o altar foi levantado perto da “árvore sagrada de Moré”. “Moré” significa “mestre”, em hebraico. Era o carvalho-mestre dos cananeus. Seus sacerdotes tomavam alucinógenos e deitavam-se nus debaixo dos carvalhos, para interpretar o barulho do vento nas copas das árvores como augúrios divinos. Tendo desprezado Deus, os gentios foram desprezados por ele, como Paulo diz em Romanos (Rm 1.18-19). Sem Deus, perdiam-se na tenebricidade de seus corações. Buscavam ouvir a voz de Deus na copa das árvores sacudidas pelo vento. Como é vazio e desorientado o homem sem a revelação divina! Pois bem, junto ao lugar de adoração pagã, ele erige um altar para seu Deus.

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O PROFETA JONAS

Quarta  conferência teológica preparada pelo Pr. Isaltino Gomes Coelho Filho para a PIB de Nova Odessa, SP, 5/7/1

Boa parte das discussões no livro de Jonas são sobre o peixe ou sobre a historicidade do evento. Perde-se muito tempo debatendo se Jonas é um relato de algo realmente sucedido, parábola ou alegoria. Já li livros dedicando espaço enorme para provar que um peixe pode engolir um homem e vomitá-lo, vivo, depois. Não creio que o livro tenha sido escrito com este propósito. Na realidade, creio que isto é absolutamente irrelevante. Há um sentido em seu conteúdo, mais que na sua forma. E é nele que devemos centrar o nosso interesse.  Também não creio que a discussão sobre o peixe seja sinal de ortodoxia, como pensam alguns. É sinal de perda de oportunidade. De desperdício de material. O que Jonas nos ensina não está aqui. Há muito desperdício nesta discussão.

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“NA CASA DE MEU PAI HÁ MUITAS MORADAS”

Isaltino Gomes Coelho Filho

“Na casa de meu Pai há muitas moradas; se não fosse assim, eu vo-lo teria dito; vou preparar-vos lugar” (João 14.2).

Recordo-me que, criança de dez anos, saído da missa, na Igreja de São Tiago, na Praça 24 de Outubro, em Inhaúma, meu bairro de criação no Rio, ter me perguntado: “Se eu morrer será que vou para o céu?”. Em casa, comentei isso com minha mãe. Já envolvida com o espiritismo, ela apenas me disse: “Deixa de bobagem, menino!”.

Aos catorze anos conheci o evangelho, e fui batizado no dia em que completei quinze anos. A questão ficou me suficientemente clara. Eu iria para o céu. Não por ter abraçado uma nova fé ou por ser bom. Por causa de Jesus Cristo. Ficou muito claro para mim que Jesus salva o pecador que se arrepende e crê. Quando o Pr. Falcão Sobrinho pregava, o Espírito me mostrou isto. Assim, estas palavras de Jesus me acalentam o coração: ele foi preparar lugar. Quando morrer, irei ter com ele. Esta certeza não tem a ver com ser batista, mas com Jesus. Ele é o Salvador. Como bem diz um hino que, infelizmente, deixamos de cantar: “Para o céu por Jesus irei, para o céu por Jesus irei. Grande é meu prazer de certeza ter: Para o céu por Jesus irei”.

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ESTUDO BÍBLICO EM TITO

Preparado pelo Pr. Isaltino Gomes Coelho Filho para núcleos de estudo bíblico

INTRODUÇÃO

Paulo fora libertado em Roma, quando de sua primeira prisão. Deve ir ter ido para a ilha de Creta. De lá foi para Éfeso e depois para a Macedônia. Tito ficou em seu lugar, em Creta (1.5). Mais tarde, Paulo escreveu-lhe esta carta com algumas orientações sobre como administrar a igreja daquela ilha. Ela não é posterior, portanto a 2Timóteo, embora venha depois dela em nossa Bíblia. Deve ter sido escrita na mesma época de 1Timóteo, entre os anos 61-65. São cartas gêmeas, escritas logo após a soltura de Paulo.

Em 1Timóteo, a palavra chave é “doutrina”. Em Tito, é “boas obras”. O versículo central está em 3.8. Os cristãos devem mostrar sua fé em boas obras. As duas epístolas se completam. Ter doutrina correta é bom. Isto se chama “ortodoxia”. Mas de pouco adianta se não houver conduta certa. Isto se chama “ortopraxia”. Muitas vezes enfatizamos a doutrina e esquecemos os bons relacionamentos dentro da igreja. Este é o tema da carta. Como os membros da igreja devem viver uns com os outros.

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O BOM CONSELHO DO GENERAL PEDRO D’ALMEIDA

Em 1755, Lisboa foi destruída por um terremoto. O rei Dom José perguntou ao general Pedro D’Almeida, marquês de Alorna, o que fazer. A resposta foi: “Sepultar os mortos, cuidar dos vivos e fechar os portos”.  O conselho foi levado a sério, tanto que a reconstrução de Lisboa começou no dia seguinte. Com as riquezas da colônia brasileira, o que aumentou a idéia de separação do Brasil de Portugal.

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ESTUDO BÍBLICO EM HEBREUS – PARTE 4

Preparado pelo Pr. Isaltino Gomes Coelho Filho para núcleos de estudo bíblico

Nos três estudos anteriores, vimos que Hebreus é um livro singular, com uma estrutura diferente dos demais. Vimos, também, que sua linha de argumentação difere da dos demais. O autor conhece profundamente a teologia judaica, particularmente a questão  dos sacrifícios. Mas sua maneira de interpretar o Antigo Testamento é diferente da de Paulo, pois ele emprega categorias de pensamento próprias dos gregos. Isto torna o livro mais fascinante, porque é uma forma de argumentação que ainda não estudamos.

 

Já vimos, anteriormente, três dos seus temas: a superioridade de Cristo, o sacrifício de Cristo e a nova aliança, trazida por Cristo. Hoje completaremos o livro, com o quarto e último tema: a disciplina de Jesus. É uma conseqüência prática da pessoa e da obra de Jesus Cristo.

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O PROFETA JOEL

Um estudo preparado pelo Pr. Isaltino Gomes Coelho Filho para o campus avançado do Seminário Teológico Batista do Sul do Brasil, em Cabo Frio, agosto de 2004.

Após uma visão geral do profetismo como primeira palestra e uma segunda sobre Naum, nosso segundo vulto a ser estudado é o profeta Joel. Infelizmente, este é um profeta sobre o qual há pouca reflexão. E é ele citado, na maior parte das vezes, pinçando-se suas declarações do contexto que ele vivenciou. Se houvesse um estudo sério para descobrir do que estava ele falando, sobre seu escrito e sua teologia, evitaríamos muitos problemas de interpretação do Novo Testamento. Para muitos, o Antigo Testamento é mera curiosidade arqueológica. Mas, quando é mal interpretado, os equívocos se projetam no Novo Testamento. É prova disto o fato de que muitas das grifes evangélicas, das invenções e esquisitices contemporâneas estejam com base (ou falta de base) no Antigo Testamento. Exegeses precárias e inusitadas e interpretação fragmentária ou atomizada (como Martin-Achard prefere chamar [1]) de passagens ou incidentes, isoladas de seu contexto histórico, produzem doutrinas exóticas. Assim sucede com nosso personagem de hoje.  Interpretações equivocadas de Joel produzem distorções teológicas sérias, do ensino neotestamentário.

Com estas considerações iniciais, que são, ao mesmo tempo, advertência e estímulo, caminhemos por Joel. Sem dúvida que poderemos aprender dele.

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O PROFETA HABACUQUE

Um estudo preparado pelo Pr. Isaltino Gomes Coelho Filho para o campus avançado do Seminário Teológico Batista do Sul do Brasil, em Cabo Frio, agosto de 2004

Fui a Cuba, algumas vezes, para pregar nas igrejas das duas convenções, a de Cuba Oriental e a de Cuba Ocidental, e para lecionar nos seminários batistas das duas convenções. Quando fui pela segunda vez, que foi a primeira no interior do país, entendi Habacuque melhor do que antes. Voltei em crise, profundamente chocado,  usando o seu  “até quando, Senhor?”. Voltei abalado na minha teologia que enfatiza muito a direção de Deus na história. Vi um povo sofrendo e um Deus apático, que não intervinha para libertar seu povo. Voltei bem melancólico, mas também um pouco mais humano, mais compreendedor de que a vida não é tão simples como muitas vezes formulamos em nossos esquemas. Senti-me, emocionalmente, como o profeta. Mas fui confortado, como o profeta, ao refletir sobre a história, em pensar sobre o passado. Cuba também está nas mãos de Deus e sua vontade sucederá lá, apesar do regime. Que um dia cairá. Ninguém barra Deus, ninguém frustra seu querer, ninguém o impede. Aprendi isto com este profeta.

Habacuque estabelece um novo tipo de profecia. A palavra do Senhor não veio a ele. Não encontramos a fórmula clássica, wayommer Iahweh, “e disse Deus”.  Foi ele a ir ter com o Senhor. Inclusive, sua profecia é chamada de hamassa, que  traduzimos por “oráculo”. Mas, literalmente, o sentido é “peso”. Sua mensagem era um peso sobre seus ombros. Ele  “viu”, diz nossa versão. O hebraico é  hazah, termo largamente empregado na literatura  apocalíptica, e não davar¸ “palavra”, como os profetas costumam empregar. Embora alguns comentaristas julguem ser a mesma coisa, é oportuno lembrar que Daniel e Ezequiel usam mais hazah e os demais profetas, davar. Habacuque já está na  fase de ser uma transição do profetismo para o apocalipticismo [1]. Este entendimento é necessário para se saber que o critério hermenêutico para entender seu livro pode ser diferente do empregado para um oráculo. A linguagem poética pode ser mais forte, aqui, e precisa se cuidar disto na interpretação.

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O PROFETA NAUM

Um estudo preparado pelo Pr. Isaltino Gomes Coelho Filho para o campus avançado do Seminário Teológico Batista do Sul do Brasil, em Cabo Frio, agosto de 2004

Pode ser que nunca tenhamos ouvido uma mensagem pregada em Naum, mas ele é um profeta extraordinário. Num momento muito difícil de minha vida, um aluno meu, da Faculdade Teológica Batista de S. Paulo, deu-me um cartão com uma palavra pessoal e a passagem de Naum 1.7. Foi meu primeiro contato com o profeta em termos de ensino pessoal. Diz o texto: “O Senhor é bom, uma fortaleza no dia da angústia; e conhece os que nele confiam”. Tôv Iahweh, que mensagem! Há mensagens bonitas em Naum. Mas, mais que versículos bíblicos isolados, este profeta traz uma lição global que precisamos levar em conta nos dias atuais, em que a Igreja de Cristo sofre uma hostilidade velada do mundo e tem sua mensagem bem descaracterizada. O grande ensino de Naum é o senhorio divino sobre a História, e sua moralidade, que pune o mal. Vamos aprender dele.

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O PROFETA QUE A CLASSE DOMINANTE REJEITARIA

Conferência bíblica preparada pelo Pr. Isaltino Gomes Coelho Filho para a IB do Braga, em  Cabo Frio, julho/2002

Encontramos muitos membros de igreja chamados de Miquéias, o que prova que nosso profeta é bem conhecido dos membros de nossas igrejas. Mas não podemos dizer no a mesma coisa de sua mensagem. Normalmente nos referimos a ele como um profeta messiânico, principalmente pelo texto, bem conhecido, de 5.2. Mas ele é, pode-se dizer assim, um irmão gêmeo de Amós, em termos de conteúdo de pregação social. Os dois caminham lado a lado. Na realidade, Miquéias falou mais de problemas sociais que do Messias. Ele foi messiânico, mas pregou muito contra os desmandos sociais de uma classe política ambiciosa e ávida por riquezas, bem como pregou também contra a religião institucionalizada, dirigida por homens sem escrúpulos e sem temor de Deus. Homens que buscavam seu próprio bem estar, em vez de buscarem a vontade de Deus e o bem estar de seu povo. Creio que devemos atentar para isto: o perigo da institucionalização da religião, quando ela se torna mais um rito, um ofício, um emprego, que questão de vida. Isso torna Miquéias bem atual para nós.

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UM NOVO DEUS NO PEDAÇO

Isaltino Gomes Coelho Filho

Pastoral do boletim da IBC de Macapá, 7.11.10

Balões de ensaio lançam um novo Deus no pedaço: o Estado. Ingênuos os ignoram ou acham que quem os vê é alarmista. Mas basta conhecer um pouco de história (não sou um historiador; apenas curioso) e ter alguma noção do rumo do pensamento humano.

O Apocalipse é um dos livros da Bíblia que mais leio e onde mais bebo. Ele me encanta. Trata da meta-história, a história além da que vivemos. Sem ser milenista, vejo nele a história da igreja e o triunfo do Cristo-Cordeiro, que virá encerrar a história.

Assisti a um filme, de feitura profissional, sobre o Apocalipse. João é mostrado banido com outros cristãos, em Patmos. O imperador romano se proclamara Deus. Com ele surgira uma nova era. De ódio aos cristãos. Não tolerava dissidência de opinião. Sua voz não podia ser questionada. A hostilidade foi grande quando cristãos recusaram a visão moral e religiosa do Estado.

Não sou alarmista. Centenas de artigos, dezenas de livros e de revistas provam isto. Mas vejo grande semelhança entre o Estado romano e o atual. Uma riqueza desonesta e indecente dos poderosos, culto ao poder e à matéria, o adultério como virtude, apologia do homossexualismo, o aborto como prática comum, desrespeito à vida e a divinização do poder civil. Que, personificado em César, não podia ser contestado. O culto ao poder civil divinizou o governante. Não cultuando o poder, os cristãos foram hostilizados. Primeiro, perseguidos. Depois, banidos. Por fim, mortos.

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